Adérito Silveira

O culto dos mortos e dos enfermos

Em tempos uma mulher interpelou-me num café e com ar seráfico e sofredor desbobinou um rol de pessoas doentes: Tinha chegado do hospital, de visitar gente conhecida.


Pelo caminho ia dando informações sobre o estado desses mesmos enfermos. Os doentes pelo desenrolar das suas palavras quase tinham garantido o passaporte para o lado de lá da fronteira dos vivos. Dizia essa viúva que Deus na sua suprema bondade e misericórdia havia de curá-los a todos... Para despachar o rol desses doentes, eu disse-lhe com ar desprendido que temos de cuidar dos vivos e dos doentes e que dos mortos resta-nos rezar por eles e lembrá-los naquilo que eles fizeram de bem.

Para essa mulher os mortos são a sua forma de estar no mundo… A razão primeira e solene para que a vida tenha algum sentido.

Não deixa no entanto de ser uma pessoa boa. Uma pessoa com um passado atribulado por alguns infortúnios da vida que muitas vezes toca a quem menos merece. Nunca ninguém como ela viveu a angústia do amor, o desejo, as atrocidades que assaltam a vida de qualquer ser humano. Esta boa mulher tem expressões que nos levam a pensar seriamente na razão da nossa existência: “As Vossas pegadas Senhor, nos calcam de amor e saudade quando não estais junto de nós… Oremos!”

Há gente das aldeias que vai à cidade procurar saber novidades, notícias sobre possíveis pessoas acabadas de morrer… E nas fotografias dos mortos, esses estranhos e curiosos seres são atravessados de sonhos e sombras e parecem ficar despidos voando nas asas da noite em mistérios e cogitações.

Há curiosos que espreitando das janelas ou dentro dos cafés olham para fora procurando saber quem passa e tecem opiniões sobre pessoas conhecidas na procura de desferirem uma crítica numa linguagem acutilante. E tantas vezes se deixam adormecer no hálito fétido de dizer por dizer mas preferencialmente dizer mal. E quando alguém passa mostrando problemas da vida, um mal-estar ou mesmo fraca saúde, logo sobre esse alguém caem as maiores críticas e desgraças e quase se procura enterrar a pessoa, só porque passa naquele momento.

A casa Euclides tem a particularidade de ter sempre mirones que com ar de espanto e tristeza olham as fotografias dos mortos procurando tirar uma radiografia perfeita: saber quem são, a idade e como terão morrido, se fulminantemente ou morte prolongada, ou mesmo se junto de mulher enteada.

Tratando-se de jovens ou crianças, logo as bocas se abrem e os olhos se arregalam de espanto... Quem estiver por perto e não sofrer de surdez poderá também ouvir suspiros e palavras avulsas de comiseração e pena. Os mirones mais emocionados poderão mesmo fazer o sinal da cruz e se possível esperar por lágrima em sinal de respeito pelo morto.

Normalmente a importância destas infelizes ocorrências joga de acordo com o estatuto social do infeliz. E quando se trata de pessoa conhecida, de casa abrasonada ou família abastada, logo o correio vai em flecha à aldeia informar sobre o infausto acontecimento. A preparação emocional é muitas vezes estudada durante a viagem... Normalmente quem leva este tipo de notícia é mulher viúva, solteirona ou mulher malcasada. Com mais frequência são as viúvas a levar a informação. Neste caso o xaile parece cobrir-lhes o rosto e o corpo vai curvado em sinal de tristeza e respeito.

Em muitas aldeias há pessoas que no dia-a-dia andam tristes. Tristes e desanimadas porque as suas vidas giram à volta dos mortos e dos enfermos, dos desventurados, dos pobres e dos tristes. Uma vida, no fundo pautada pela desgraça alheia. O modus-vivendi desses estranhos seres é em parte confortado no aconchego dos defuntos e perto deles. E assim se privam muitas vezes das refeições para não perderem pitada da cerimónia fúnebre. Parece até que a morte dos mortos se abateu sobre essas pessoas amortalhadas.

O ar funéreo e contristado leva a ser confundido com familiares próximos do defunto. E não se fazem rogados; levantam-se para receberem os pêsames, carregados de tristeza e dor exibindo um sofrimento atroz na expressão dos rostos… assoando o nariz pingante, a lágrima parece sair mais fácil.

 

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