Adérito Silveira

A música, essa arte libertadora e feiticeira

Lembro uma romaria no Pópulo, Vila Real, nos anos 70. Por volta das 4 da manhã uma mulher de seios atrevidos, saia estreita que apertava o traseiro quis dançar com um cigano alto e jovem ao toque da Banda de Mateus.


O olhar dela era fulminante, felino, vadio… matador. O cigano como que hipnotizado pela música, deixou-se arrastar pelos braços firmes daquela mulher provocadora acabada de chegar da capital. Ao lado, encostada a uma árvore, a mãe do cigano, esquelética, febril e a tremelicar das mãos e da cabeça, esboçava um sorriso de felicidade por ver o seu filho rodopiando na dança estonteante com uma jovem bonita que dava nas vistas. 

A música tinha ajudado a que aquele quadro insólito fosse possível, porque na verdade a arte toca na humanidade os corações, abre os murmúrios das fontes percorrendo o mundo de emoções…

Hoje utilizo a música para ilustrar e fazer compreender as perspetivas da vida que procuro viver. Penso em Bach, Beethoven, Mozart, Bizet, Mascagni, Bizet e outros, servindo-me deles como imagens a que fui dando expressão ao longo dos tempos. É esta a minha angustiante necessidade de libertação da morte pela música, pelas melodias que foram o meu sustento espiritual e a razão suprema de tantos sonhos, frustrações e fantasias…

Agora a música é a linguagem, por vezes triste, de uma suavidade estranha, inconclusiva e permanentemente a remeter-me para um tempo de outro tempo a que ainda me posso agarrar, mas só por momentos porque o peso das emoções é forte e a dor é por vezes incontrolada.

Há melodias que ainda ressoam estranhas, vibrando como despedidas perenes. Há cenários deslumbrantes que lembram um mundo encantador, enigmático, por vezes até perturbador: silhuetas campestres, paisagens rurais com horizontes sem fim. Foguetório incessante no ar. Festas em pequenas aldeias e bandas de música seguidas de rusgas e zés-pereiras que conferem um imaginário de pura felicidade e nostalgia. E sempre espaços preenchidos por seres humanos simples, imbuídos de olhares e corações solidários, cheios de bondade e espiritualidade… espaços de festas pisados por ciganos que agarrados às suas bestas dançavam no seu imaginário num mundo hilariante adornado de pó dos recintos que lhes entravam pelas entranhas. E como bálsamo milagroso, os ciganos sentiam-se felizes agradecidos ao seu Deus por estarem ali e fazerem parte da comunidade… os cães aferroados de pulgas, ao toque das bandas, das fanfarras, corneteiros e rusgas também eles pareciam dançar arreganhando os dentes do flagelo, irritação e dor.

A música, essa libertadora, subtil e arrasadora que transforma as tristezas em alegrias inusitadas, elegíacas, alegrias que suavizam e adormecem os corações empedernidos e selvagens. A música, essa musa inspiradora que dá ao Homem a extraordinária sensibilidade e sentido de humanidade. Dá a genialidade da paixão, da delicadeza do trato e do sentido do equilíbrio e das proporções. Bach tão bem o sabia fazer.

O homem inteligente e sensível é sempre um homem apaixonado pela música, pela linguagem, pela literatura e teatro, pelo cinema e pelas mulheres, tantas vezes elas servindo como fonte de inspiração de artistas.

A música, essa linguagem tão bela e por vezes perigosa porque põe melómanos a caminhar contra o vento todos os dias e contra todos os ventos. Sem a sabedoria, sem o sentido da ética, da humanidade e sensibilidade, consentimos dia a dia em destruir a natureza que nos degrada e nos mata…

A música faz parte da criação do universo que celebra a exaltação da harmonia humana que por sua vez ajuda à racionalidade do Homem nas grandes decisões que tem de tomar para que o caos não se instale no coração de cada um de nós…

Tudo o que existe tem uma beleza própria. O brilho, as cores, as brisas e os odores aconchegantes. Pela música obtemos as grandes construções imaginárias de sonhos que nos afagam e sustentam. Pela música resplandecemos na envolvência da felicidade suprema porque simplesmente estamos vivos e podemos sentir o milagre da vida pela harmonia dos sons que nos banham e purificam…

A música, essa arte libertadora e mágica.

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