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“Dadas as circunstâncias não voltarei nas próximas semanas”

Enfermeiros portugueses a trabalhar na Galiza estão a atravessar diariamente a fronteira, novamente controlada desde 16 de março, mas alguns optam por ficar em Espanha nas próximas semanas para “proteger a família, colegas e doentes”.


Hugo Rodrigues tem 24 anos, é enfermeiro num lar de idosos na Galiza, em Espanha e há duas semanas que não vai a Chaves, a sua terra natal e tão cedo não pensa regressar pelo menos até “a situação da pandemia da Covid-19 acalmar”. “É por opção. Trabalho com muitas pessoas e nunca se sabe se poderei alguma vez ficar infetado e levar o vírus para junto dos meus familiares. Já depois de eu ter tomado esta decisão, a minha chefe veio falar comigo e pediu-me para não ir a Portugal para não prejudicar a minha família, mas também para fazer o meu melhor para proteger aqueles 125 residentes que temos no lar e que estão mais expostos”, sublinhou à agência Lusa. 

Apesar de longe da sua terra e confinado a casa, Hugo Rodrigues garante que está a passar bem toda esta situação por continuar a trabalhar, algo que permite “aliviar a cabeça”.

“Temos de aguentar. Aqui [em Espanha] os políticos falaram em 15 dias de quarentena e que depois iam atualizando o prognóstico, eu digo que vai ser no mínimo um mês. Temos que ser conscientes, o vírus espalha-se por contacto, então se nós ficarmos em casa e não nos movermos ele vai ficar imóvel e vai estagnar. Está nas nossas mãos a cura deste vírus”, diz.

Adriana Pereira, enfermeira em Ourense, esteve em Chaves, de onde é natural, há 15 dias, mas vai ficar em Espanha nos próximos tempos. “Dadas as circunstâncias, e por Espanha e Portugal terem declarado estado de emergência, não voltarei nas próximas semanas”, garante a enfermeira, de 24 anos. Para Adriana Pereira, as pessoas “só agora estão a levar esta pandemia a sério e têm medo”. “Isso afeta até o ambiente de trabalho. Os cuidados são a redobrar, por nós e por eles. Mesmo com falta de recursos damos sempre o nosso melhor”, realça.

Já Carlos Varandas, enfermeiro de 35 anos, é um dos muitos profissionais daquele concelho de Trás-os-Montes que se desloca diariamente para a Galiza onde trabalha para o serviço galego de saúde.

“Ao chegarmos a casa, a roupa é logo colocada a lavar, e tomamos logo banho. Recorrentemente lavamos as mãos com gel desinfetante. Seguimos o protocolo”, conta o profissional natural e a residir em Chaves.

Há 10 anos a trabalhar no país vizinho, e há oito a deslocar-se quase diariamente entre os dois países, pela primeira vez está a ser controlado na fronteira, que desde 16 de março se encontra sob controlo devido à pandemia da Covid-19.

“Tenho uma credencial e o cartão de trabalhador do serviço galego de saúde para passar a fronteira, mas como a autoestrada está fechada perco mais 15 minutos em média para sair e entrar em Portugal”, confessa.

Apesar disso, o enfermeiro percebe a necessidade de verificar as fronteiras para “controlar os fluxos e evitar que as pessoas se movimentem para fazer turismo ou compras”.

Com dois filhos, Carlos Varandas mantém o ritmo de trabalhar em Espanha e viver em Portugal, pois é profissional no serviço de oncologia e paliativos de Ourense que não está “tão exposto”.

Após já ter recebido formação, o flaviense manifesta-se ainda pronto para ajudar caso seja chamado para o combate à Covid-19.

Também Márcia Jesus tem enfrentado nos últimos dias o “transtorno” de passar a fronteira para o trabalho em Espanha, na zona de Verín, num lar de idosos.

A viver em Chaves, mas natural de Murça, também no distrito de Vila Real, a enfermeira desloca-se diariamente, percorrendo os cerca de 22 quilómetros que separam as localidades e explica que a maior complicação tem sido os cuidados e precauções necessárias.  

“Na fronteira tenho encontrado os mesmos guardas, que já me conhecem, pois desloco-me às mesmas horas. Mas tenho tido todos os cuidados necessários, desde que saio de casa e entro no emprego, para não expor nem contagiar ninguém”, realça.

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