Orlando Alves

De Barroso com fervor


Como se o roxo fúnebre destes dias quaresmais não bastasse para toldar a saison, eis que, de repente, aparece o maldito Covid a infernizar nossas vidas. Resisto à tentação de falar do dito e fazer dele o protagonista mor deste meu escrever. Prefiro antes fixar-me no aspeto refrescante com que a “A Voz de Trás-os-Montes” se apresenta.

Design gráfico atrativo, menos pastoso e compacto na apresentação jornalística, colorido quanto baste e o propósito louvável de querer afirmar-se como um jornal onde caiba a região de Trás-os-Montes e, assim, fazer jus ao título que ostenta.

Tirar o jornal do confinamento da “bila” e alargá-lo aos 14 concelhos do distrito onde há gente e atividade económica a necessitar de quem lhe dê espaço e voz, é caminho andado para se tornar numa referência jornalística.

Convidado a ocasionalmente colaborar, aceito o desafio que assumo sem quaisquer propósitos em evidenciar concentrada erudição.

E se o que prevalece é a construção de uma identidade para, através dela, manter vivo o conceito de região (vejo no verbo regionalizar a hipótese que nos resta de fazer de Portugal um país uno e habitado) aporto à mesma, em coerência, o retrato a preto e branco desta “nesga de terra” a que chamam Barroso determinada que está em dar à futura região administrativa de Trás-os-Montes e Alto Douro o toque de classe associado à singularidade cultural, ambiental e paisagística que, sem favor, se lhe reconhece.

Por associação de ideias, atrevo-me a ver no meu Barroso “o ninho impossível e apetecido” com que o transmontano mor, arquiteto da paisagem, encima o Reino Maravilhoso.

Não seja, pois, a insensatez e falta de visão estratégica dos transmontanos a desmembrar os componentes territoriais que lhe dão forma e colorido. 

Agindo assim em causa própria, convido todos quantos me possam ler a visitar Barroso, “o tal ninho escondido”.

E se o viandante ao entrar no aconchego de uma aldeia se deparar com uma galinha à solta ou um poio de bosta a ornamentar o empedrado não se assuste nem fuja. É Barroso em todo o seu esplendor e grandeza. É o sinal primeiro de haver-se chegado às tais terras de gente real. À terra Património Agrícola Mundial.

Entre depois no coração da vila e atreva-se a entrar no Ecomuseu e no altaneiro Castelo.

Aventure-se, depois, numa incursão à lendária ponte da Misarela contemplando a majestosidade do Gerês.

Entretanto, porque o estômago pede aconchego, dê-se uma fugida a Salto para degustação da posta barrosã.

E se ainda tiver tempo suba ao planalto da Mourela e contemple a senhorial Tourém ou a bucólica e acolhedora Pitões.

Aqui registe o pôr do sol mais lindo que é dado ver-se na contemplação do vale do Cávado.

Tire uma daquelas que servem para mais tarde recordar. Encha por fim o peito de ar e sinta o que de forma contristada digo: Vinde ver meu Mundo prestes a acabar!

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