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Entrevista a D. António Augusto Azevedo

“Que nesta Páscoa percebamos que todos somos irmãos e que precisamos todos uns dos outros”

Em plena Semana Santa e a poucos dias da Páscoa, as portas físicas das igrejas por todo o mundo estão fechadas mas, apesar da pandemia, há outras que se abrem para aqueles que se agarram à fé. D. António Augusto Azevedo deixa, nesta época pascal, uma mensagem de força, esperança e de solidariedade a todos os devotos.


Como é que a Igreja, e em particular a sua diocese tem lidado com esta situação de pandemia e de estado de emergência? 

A Igreja está em comunhão e em sintonia com o sentir de todo o povo e também a colaborar para que estas medidas que foram recomendadas tenham bom efeito. Tem feito aquilo que é necessário para que esta estratégia nos preserve, o máximo possível, de danos maiores. 

A Igreja e as comunidades sofreram com esta privação, as celebrações, as eucaristias, os sacramentos e a catequese estão em suspenso, o que naturalmente nos causa dor e muito lamento. 

A Diocese está a viver este período como um grande desafio. Foi necessária muita criatividade, muito empenho de muitas pessoas para que fossem minimizados os danos. Sem missas presenciais, tentamos encontrar formas de, pela rádio, televisão e sobretudo pelos meios digitais, fazer chegar não só as missas e outras orações, mas também os nossos serviços, através dos secretariados e responsáveis, às paróquias, aos padres e às famílias. É um tempo em que nos mantemos ativos. 

Nas paróquias, e em aldeias, onde a maioria dos fiéis pertence a uma população mais idosa, como é que os padres se têm adaptado a esta nova realidade?

Esta situação não é agradável para ninguém, mas acho que apesar de tudo tem havido um caminho de grande pedagogia. Creio que neste momento as pessoas estão mais conscientes de que foi assim porque tinha que ser e foi para o bem comum. Continua a haver missa, mas em privado. Isto também nos despertou para outras formas de oração e de comunhão porque, mesmo em tempos como estes, a Igreja sempre encontrou formas de se adaptar. Louvo o trabalho dos padres na assistência às comunidades. Os funerais são reduzidos à sua formalidade mínima, mas o padre está presente. Não abandonamos as pessoas e procuramos ajudar no que é necessário. Está a ser importante a presença da Igreja junto das populações, é uma forma de lhes dar algum conforto, pacificação e consciência da situação em que estamos. 

Com a Páscoa aí à porta, como é que a Diocese de Vila Real está a preparar as celebrações?  

Mediante as orientações de Roma, a Diocese vai manter as celebrações próprias da Páscoa, com a transmissão das mesmas, a partir da Sé Catedral, para a internet e algumas para a rádio e que as pessoas poderão acompanhar. Assim como nas diferentes paróquias que terão as suas formas de transmissão. 

O que não haverá são as festividades que são habituais mas, de qualquer forma, propusemos dois sinais que, embora simples, são muitos significativos: na noite de sábado que haja, em todas as casas, uma vela acesa e, no domingo, em todas as igrejas, o tocar dos sinos ao meio dia para, assim, alegrar um pouco mais a nossa Páscoa. 

Para além disso, preparámos um conjunto de propostas que estamos a distribuir, para que as famílias tenham, em casa, uma Páscoa diferente. Desde uma ceia pascal na quinta-feira, com o partir do pão, inspirado no Evangelho, com uma oração especial à volta da cruz na sexta-feira Santa com a Via Sacra, ou então na noite de sábado, e sobretudo no almoço de domingo, preparem um momento de oração. Tenho a certeza que, com estas componentes, a Páscoa dentro das famílias será muitíssimo mais rica. É um ano que teremos que nos voltar para dentro, um dentro pessoal e familiar para que as famílias adquiram mais a sua consciência de que são cristãs. 

Numa comunicação pediu para “Que esta Páscoa seja a verdadeira passagem para um tempo novo”. Que ensinamentos nos trará este tempo de isolamento que fomos obrigados a viver?

 A vida traz-nos muitas surpresas. Muitas vezes temos a sensação de que temos a vida muito organizada e controlada, mas ela e a própria natureza surpreende-nos. Enquanto crente, ou não, é importante estarmos abertos a isso e perceber que este tempo nos vai ajudar a perceber as nossas forças e as nossas fraquezas. Este tempo obrigou-nos a parar e este parar ajuda-nos a reencontrarmo-nos e certamente a reequacionar muitas coisas da nossa vida. Tenho a certeza que este tempo, embora duro e difícil, vai ajudar-nos a sermos melhores pessoas e aos mesmo tempo a reencontrarmo-nos enquanto sociedade. Vai pôr à prova a nossa capacidade de sermos solidários.

Que mensagem deixa, em época de Páscoa, de comunhão entre as famílias e que, pelas circunstâncias, se veem limitadas nas manifestações de afeto?

Uma mensagem de paciência e força. Tal como aprendemos com Jesus que foi capaz de carregar a sua cruz. Nós somos capazes, ajudando-nos uns aos outros, de ultrapassar esta fase. 

Uma mensagem de esperança. A Páscoa diz-nos que no meio de túneis há uma luz ao fundo, luz essa que acreditamos ser Jesus, a ressurreição e a vida. A vida tem sempre a última palavra. Pode demorar mais ou menos, mas essa vida havemos de a reencontrar. 

Uma mensagem de apelo à solidariedade. Esta época é o exemplo maior de amor, no sentido de alguém que dá a vida até ao fim pelos outros. E é isso que eu espero e desejo. Que nesta Páscoa percebamos que todos somos irmãos e que precisamos todos uns dos outros. 

E por fim, uma homenagem a todos os profissionais de saúde, bombeiros, Proteção Civil, forças de segurança, voluntários e instituições pelo trabalho que estão a desenvolver. Pessoas que demonstram que tudo fazem em prol dos outros. Quero deixar aqui essa minha homenagem e uma Santa Páscoa para todos. 

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