Victor Pereira

Não Invocar Deus em Vão


As desgraças e as tragédias humanas são quase sempre aproveitadas pelos mais fundamentalistas ou fanáticos religiosos para lançarem terror psicológico sobre as pessoas, concluindo que são maldições divinas ou justos ajustes de contas de Deus com a humanidade pecadora, ou até, e vá-se lá saber como é que sabem estas coisas, os tempos apocalíticos estão muito próximos. E até mesmo os ambientalistas fundamentalistas estão a aproveitar a pandemia para fazer vingar a inatacável ideia de que este furacão pandémico é fruto dos sucessivos abusos do homem sobre a natureza. Há comportamentos a mudar, sem dúvida, mas lembro-lhes que em muitas fases da história estes abusos e a atual poluição não existiam e nunca faltaram pestes e epidemias. 

Quem é fanático arranja sempre pecados nos outros ou no mundo para proferir ou anunciar condenações. Do ponto de vista cristão, não tem qualquer sustentação uma interpretação moral ou moralista das tragédias humanas. É, aliás, uma gravíssima invocação de Deus em vão, tal como se revelou em Jesus Cristo. Deus está e estará sempre do lado da humanidade. Se assim não fosse, nunca se conseguiria compreender a Incarnação e a Paixão de Jesus Cristo, que acabamos de celebrar. Na Bíblia, sobretudo no Antigo Testamento, vemos a rápida retribuição de Deus, castigador para o pecado e pródigo e benévolo para quem lhe é justo. Mas Jesus Cristo superou irremediavelmente esta visão de Deus, mostrando-nos e ensinando-nos que Deus é amor e não é senão amor, querendo sempre a vida em abundância e o bem do ser humano. Neste momento, mais do que ninguém, Deus está a sofrer com a humanidade e está ao lado do seu povo sofredor, de muitas e variadas formas, a preparar um caminho de salvação. Prestamos-lhe um mau serviço e uma imerecida e gravosa traição se lhe atribuímos a autoria desta tragédia humanitária, que outra origem não tem do que as impenetráveis leis da natureza e a incúria humana.

O que as tragédias humanas nos ensinam, onde se incluem as epidemias e as pandemias, é que o ser humano nunca se deve esquecer da sua fragilidade neste mundo e que não domina nem controla tudo, e jamais o conseguirá, por muito que o poder da ciência e da técnica lhe tenham incutido essa convicção, e que vive num jardim instável e imprevisível onde há uma terrível competição pela sobrevivência, incluindo as bactérias e os vírus. Pela lei da natureza, as tragédias aconteceram e vão continuar a acontecer. Não são punições ou tundas corretivas.

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