Victor Pereira

Para Memória Futura


Como vivemos num tempo líquido, que corre muito depressa e rápido esquece o que se vive e diz, convém não deixar de fazer uma breve avaliação da quarentena forçada a que fomos obrigados, pelo menos para já.  

Em primeiro lugar, o grande destaque vai para os médicos, enfermeiros e todos os auxiliares de saúde, que se entregaram de forma heroica na luta contra a pandemia. Podemos alegar que não fizeram mais do que era a sua obrigação, mas foram inexcedíveis no seu esforço e dedicação. Cedo se percebeu que iriam dar o seu melhor e que poderíamos contar com eles para vencermos esta fase tenebrosa da humanidade. E todos aqueles que abandonaram a sua aposentação e se uniram com humanismo à causa deixam um exemplo memorável, mostrando-nos que nunca estamos aposentados para defender o bem da humanidade e para lutarmos pelas boas causas do mundo. 

Em segundo lugar, acho que o governo teve uma atuação assertiva. Com algumas peripécias pelo meio, a que a sociedade de hoje reage com descabida impiedade, a Direção Geral de Saúde e o Ministério da Saúde conduziram de forma responsável e competente a quarentena, num tempo de muitas dúvidas e incertezas. Quem pode alegar que faria muito melhor? Não queiram é agora vender a ideia de que o Serviço Nacional de Saúde está uma máquina afinada. Não está. Vamos ser equilibrados e realistas. Uma infinidade de pessoas viu as suas consultas serem adiadas e muitas operações urgentes ficaram por fazer. Alguns virologistas e epidemiologistas também merecem nota positiva por fornecerem informação séria, credível e crítica à discussão pública.

Em terceiro lugar, destaco a atuação da Igreja Católica, onde sou parte interessada certamente. Quando suspendeu historicamente e antecipadamente a celebração da Eucaristia comunitária e grandes festas e peregrinações, a Igreja mostrou uma sensatez e uma responsabilidade imbatíveis, até uma surpreendente modernidade, que muitos julgavam moribunda no seu seio, fazendo passar a mensagem clara de que a vida e o bem das pessoas têm de estar sempre em primeiro lugar, respeitar e proteger o ser humano é o princípio dos princípios. O simbolismo do Papa a contemplar uma imensa praça vazia, onde estávamos todos, é uma grande imagem deste tempo. 

Por fim, tenho pena que alguma classe política tenha fornecido mais uns pregos para ir enterrando a confiança dos cidadãos. Quanto à forma, um 25 de abril para esquecer. Outros, com manifestações ridículas, com uma provocação tosca e desnecessária.

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