Victor Pereira

Bendita Quarentena


Não sei se estaremos a colher os bons frutos da quarentena, pelo facto de termos sido privados dos sacramentos e do encontro comunitário, o que não é nenhuma tragédia. Se calhar alguns conservadores e fundamentalistas já estão a deitar as mãos à cabeça pelo facto de verem um padre a elogiar um tempo em que os cristãos não tiveram acesso à Eucaristia. E o não poderem receber a comunhão na boca, que transtornos psicológicos não deve ter causado! Como compreendo o Papa Francisco quando pede que rezem por ele, porque ter de levar a toda a hora com a mesquinhice e a impertinência de setores tradicionalistas e integristas da Igreja, que se agarram a refinadas minudências, que o bom senso da fé do povo entende facilmente, não é fácil. 

A quarentena foi um tempo de graça. Um tempo oportuno para questionar o ritualismo frio que está instalado na Igreja, o tradicionalismo que nos traz anestesiados, a rotina viciada que nos traz absortos, a preocupação pela salvação da alma sem nos preocuparmos com a salvação do mundo, sem uma verdadeira vida de oração de qualidade, sem estudo e acolhimento da Palavra de Deus, sem dinamismo missionário, sem uma verdadeira atenção pelos problemas da comunidade e sem compromisso com os sérios problemas do mundo. Não quero dizer que toda a Igreja seja assim, não é, mas esta cultura é notória em muitas comunidades e setores eclesiais e teria sido bom que a quarentena tivesse sido um sobressalto na vivência da fé cristã. 

Custou-me ter de aprender a celebrar a Missa sozinho, mas foi um bom momento de despojamento e de regresso às origens. Ali, diante de Cristo e da sua Palavra, caem todas as distrações e preocupações supérfulas, os exibicionismos, a indiferença do celebrar só por celebrar, a Missa torna-se naquilo que deve ser sempre, encontro intenso com Deus, com a nossa verdade e fragilidade, escuta e interiorização da Palavra de Deus, alimento fundamental para a fé, acolhimento e adoração da presença de Jesus Ressuscitado, memória, súplica, louvor, aprofundamento do amor para com Deus e da caridade para com os outros. Andamos para aí a construir missas muito leves e bonitinhas e o essencial passa-nos ao lado tantas vezes. 

Por outro lado, espero que a quarentena tenha servido para cada católico se ter encontrado com a sua fé e com as motivações mais profundas da sua vida cristã e suas práticas. Sem os outros e muitos apoios que temos à nossa volta, tivemos de personalizar a fé. Responde a ti mesmo: por que és católico?

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