Adérito Silveira

A força do verbo Amar

O ti Jerónimo era bom trabalhador, mas só quando queria. Sabia lavrar, podar e gostava da sua mula Marta.


Com a mulher Inácia ora a tratava com brandura, ora berrava, sobretudo quando a ela lhe pedia uma moeda para ir à mercearia. 

As compras cingiam-se a coisa pouca. A despesa andava à volta de um cruzado. Pedir mais era uma ousadia a que a Inácia não se atrevia.

No trabalho do campo, o ti Jerónimo mostrava conhecimentos de séculos, mas a preguiça dominava-o e as tarefas acabavam por ficar a cargo da Inácia. Ela era esperta e velhaca, mas de olhar desconfiado. Dócil com os bois, fazendo ciúme ao seu Jerónimo.

A ti Inácia tinha o hábito de falar mal de toda a gente, dizendo que as mulheres da aldeia só sabiam fazer filhos, eram boas parideiras e pouco mais. Gostava de cozinhar e quando não ia para a leira, ficava por norma perto dos potes. Comia devagar porque a falta de dentes não a ajudava. 

Remoía devagar o caldo de toucinho e broa. Ela sabia o que custava o pão e esse tempo na mesa considerava-o um ato sagrado. Quando nova, britava as nozes com os dentes e não ia ao dentista porque tinha vergonha de mostrar a boca ao doutor pela fetidez do hálito.

Com os anos, a ti Inácia ficara enfezada. A boca enrugada própria para a gargalhada. Que tragédia a desta mulher quando sentiu que já não podia rir para o seu Jerónimo que mesmo assim lhe exigia cuidados no asseio, pois ele achava-se ainda garanhão e com apetites libidinosos. Mas a ti Inácia estava já fraca com tosse seca, obrigada a levantar a enxada e caminhar para a leira, cantando toadas brejeiras, ela ganhava ânimo para o trabalho.
O seu Jerónimo esmerava-se na preguiça. Em casa cuidava do corpo e perfumava-se para receber a sua Inácia. Para ela, ele era a razão da sua existência, o detonador e o motor das frágeis pulsações. A mulher adoecera num dia de inverno. O seu homem matou uma “pita” fazendo uma saborosa canja na ilusão de a curar. Ela via fantasmas, ouvia sons estranhos de flauta, levitando-a para um mundo cintilante e maravilhoso. Tinha medo de morrer e no leito não se cansava de olhar pró seu Jerónimo. Tinha um sonho bonito e queria defendê-lo. Sonho talvez inútil porque os sonhos dos pobres são fracassados. Queria que o seu Jerónimo lhe dissesse que a amava porque isso nunca tinha sido dito. E o ti Jerónimo, adivinhando os pensamentos da Inácia, confessou-lhe que sempre gostou dela, só que não sabia se era amor… foi o bastante prá Inicia sorrir.

Às seis da manhã, a ti Inácia sentiu a carne e os pensamentos gelarem. A chuva e o vento lá fora anunciavam a força da Natureza. O vento sibilava como um clamor de despedida. A “pobre “conseguiu adormecer aberta de sorriso e com as mãos entrelaçadas nas do seu Jerónimo.

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