Adérito Silveira

FERNANDO CLAUDINO DIAS

É justo lembrá-lo

A cada passo recordo o Fernando Claudino Dias num painel de sons e imagens.


Enquanto músico da Banda de Mateus tudo nele era trabalho, energia e solidariedade. Confrontado com a música, os olhos brilhavam-lhe raiados como sol que a todos quer iluminar. Com o arrumar dos anos aprendi que todos nós carregamos mágoas, perturbações, cicatrizes, mas também alegrias quando lembramos pessoas que marcaram períodos bonitos das nossas vidas.

Estávamos em 1973 e no solfejo o Fernando rapidamente aprendeu as notas, as figuras, os ritmos, os compassos, mas sobretudo conheceu o valor da música e o sentido da vida. O solfejo devorou-o num ápice. O trompete aprendeu-o a tocar tão bem e depressa que já no 1º ano como músico era solista incontestado, merecendo do público e dos colegas rasgados elogios.

Quando tocava, fazia-o com estilo, elegância e paixão. Sim, paixão porque Fernando Dias o que fazia, fazia-o com denodada disciplina e esforço. Ainda hoje ele é incansável com o que faz, um herói de resistência humana. Na execução do instrumento ele tinha energias que duravam horas a fio. Surpreendente! Não se deslumbrava com os aplausos que lhe eram destinados depois de solar, porque o jovem tinha a senha da humildade e o sorriso da alma. Terá sido um dos mais precoces músicos solistas que passaram por Mateus. 

A sua grandeza de caráter não passava despercebida e o seu amor incondicional à coletividade não tinha limites. Lembro-me bem: quando os músicos chegavam das festas, já de madrugada, era ele com os dois irmãos, Berto e Tó e ainda Heitor Barros que se disponibilizavam de descarregar e arrumar todo o material da banda na casa de ensaio. Com muito sono, é certo, mas com vontade e paixão… e esse gesto de dedicação desinteressada sensibilizava todos os músicos.

Com tais atributos musicais, concorreu à Banda da G.N.R. de Lisboa, fazendo uma prova irrepreensível de classe, impressionando o júri que o admitiu sem reservas. As saudades à terra e à banda foram inexoráveis para uma vida efémera na capital.

Em Vila Real integra novamente a filarmónica, participando nela até que a sua disponibilidade o permitiu.

Hoje, quando se fala da Banda de Mateus, há nos seus olhos a sombra triste de uma intensa melancolia, recordando tantos anos em que tocou o seu trompete com vibrante alegria. E agora dele se ouve quase uma voz de surdina, um delicado sopro em tonalidade calma, porque a música continua na sua existência, porque a magia dos sons nunca desapareceu da sua alma plasmada na harmonia sublime da música.

Foi meu aluno. E as palavras que perfilo pretendem evocar a natureza de um músico de eleição, um homem com personalidade, de bom trato e boa formação. O tempo se encarregará de o fazer perdurar. Inexoravelmente.

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