Victor Pereira

O Abandono da Liturgia

Algum clero tem manifestado ultimamente a sua preocupação pelo facto de muitos cristãos estarem a abandonar as celebrações litúrgicas, nomeadamente a Missa dominical


Se já se verificava antes da pandemia, agudizou-se durante a pandemia, aproveitando muitos para, talvez definitivamente, se afastarem da vida litúrgica da Igreja, ato que não tem qualquer razão de ser, já que vemos as pessoas a frequentar praias, eventos e cafés, e é uma forma profundamente errática de entender e viver a fé cristã, que se alimenta muito da liturgia e da comunidade. Diga-se que este absentismo de muitos cristãos da vida comunitária da Igreja vem em crescendo nos últimos anos. Sinto estupefação e até uma leve fúria por esta cultura sem sentido que se instalou na Igreja, em que os sacramentos não são para integrar e aprofundar na vida cristã e na vida da Igreja, mas são para desertar da Igreja, como é o caso de muitas famílias que fazem as comunhões e desaparecem, de jovens que fazem o crisma e desaparecem, de casais que casam e desaparecem, de pais que batizam os filhos e desaparecem. Está tudo mal e virado do avesso. Já disse aos meus paroquianos mais de uma vez que a Igreja no verão parece mais uma promotora de festas e eventos do que a Igreja de Jesus Cristo, e que é um calvário para um padre sentir-se dispensador de sacramentos que não estão a fazer cristãos verdadeiros e comprometidos. 

O afastamento da eucaristia dominical não é uma surpresa face à cultura dominante. As pessoas hoje querem estilos de vida leves, fáceis, muito centrados no prazer e no bem estar físico, reina uma forma de vida rasteira e superficial, sem grandes ideais e de pensamento débil, quer-se viver sem grande exigência, vivemos muito virados para fora de nós mesmos, respondendo a mil estímulos e sugestões carregadas de banalidade, que nos são ardilosamente apresentadas, os valores espirituais estão em desuso ou estão a ser adulterados por duvidosas propostas de espiritualidade, não se cultiva uma vida espiritual de qualidade, impera o individualismo, o conceito de comunidade anda moribundo,  a comunhão e a fidelidade a compromissos está em decadência, a fé, por vezes, é desacreditada ou mal apresentada e até arrastada para um equivocado intimismo. Como dar importância e viver a eucaristia no meio destas condições humanas, sociais e espirituais?

Da nossa parte, acrescente-se: quantos cristãos que vão à Missa a sabem explicar aos outros? Há uma ignorância alarmante neste campo.

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