Ernesto Areias

Reflexão pós-referendo

Em democracia nenhuma iniciativa política goza da bênção da unanimidade.


Pesem embora, as vozes dissonantes que consideraram o referendo sobre a abertura da Ponte Romana ao trânsito como ato inútil, teve o presidente do Município de Chaves,  Dr. Nuno Vaz a coragem e humildade de ouvir a voz do povo sobre assunto que há anos se discute; referendos locais, realizaram-se até hoje muito no nosso país, porque é instituto jurídico a que raramente se recorre.

Assim não fariam alguns autocratas de concelhos vizinhos, que os dirigem como se fossem couto de homiziados, onde os seus seguidores serão sempre credores dos privilégios possíveis.

O povo de Chaves votou com a consciência da importância do património histórico, no caso vertente, de um dos mais emblemáticos monumentos da romanização. Creio que a par do templo de Diana em Évora, a nossa ponte romana de Trajano, com mais de dezanove séculos e das mais largas do mundo, é dos monumentos históricos mais importantes do país.

Conscientes dessa importância, o monumento mereceu o voto esmagador, mais de 85%, dos flavienses em sua defesa.

Parece-me que o presidente da autarquia teve em vista que se abrisse o debate público sobre o património histórico municipal, objetivo que acabou por não se concretizar pelas limitações impostas pela crise sanitária do momento.

O referendo, em que o presidente Dr. Nuno Vaz honrou a palavra dada, creio poder tratar-se de rampa de lançamento da candidatura de Chaves a Património Mundial da Unesco, tarefa com uma década e meia de atraso e de difícil alcance.

Suscita-me este referendo uma reflexão sobre o atual estado em que se encontra o núcleo central da freguesia da Madalena/Samaiões. Desde há muito que todas as culpas recaem sobre o encerramento da ponte romana, argumento simplista que tem obnubilado um debate sério sobre o que poderá e deverá ser feito.

Quais os verdadeiros obstáculos ao desenvolvimento da Madalena?

Em primeiro lugar, deveremos ter em vista que há constrangimentos legais que colocam o território em zona de reserva agrícola, de reserva ecológica para além dos obstáculos de se encontrar em zona de regadio e leito de cheia e da existência de numerosas linhas de água que desaguam na margem esquerda do Tâmega.

Estes constrangimentos constituirão sempre um obstáculo ao crescimento urbano. Ora, não havendo crescimento urbano não haverá habitantes e, com isso, o comércio local ficará sempre comprometido.

Claro que em nada beneficiou a Madalena a infeliz recuperação do jardim público, intervenção minimalista que converteu o espaço num lugar árido e sem atratividade.

Se é verdade que os problemas são muitos, não é menos que poderão ser implementadas medidas que tornem o simpático centro urbano da Madalena, a nossa outra margem, num lugar que valerá a pena visitar. Essa recuperação dependerá de investimento público e, sobretudo privado, de cor, luz, lojas de qualidade, recuperação dos prédios e infra-estruturas de mobilidade entre as margens.

Dedicarei a próxima crónica sobre várias soluções para a Madalena, que a todos é tão querida.

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