Victor Pereira

Cidadania sem ideologia

Foi pena que a discussão sobre a disciplina escolar de Cidadania e Desenvolvimento tenha sido arrastada para algum radicalismo desnecessário e para os velhos lugares comuns esquerda/direita ou conservadores e progressistas, quando não era nada disso que estava em causa.


Aliás, hoje começa a ser desesperante o facto de não se conseguir discutir nenhum assunto sem bipolaridade argumentativa radical, como que se tudo se resuma simploriamente ao favor e ao contra estanques. 

Podia-se ter aproveitado, por exemplo, para se discutir até onde vai o poder e o direito dos pais sobre a educação dos filhos e qual o melhor manual de educação que os pais devem seguir. Não é um poder e um direito absolutos. Se um pai resolver tirar os filhos da escola para os colocar ao serviço do negócio de casa (quantos não conhecerão esta realidade?), tem esse direito? E tem direito a impor uma educação férrea em casa, num claro mimetismo dos pais, sem qualquer respeito pela autonomia e a liberdade dos filhos? Assim como se poderia ter aproveitado para se discutir o que compete ensinar à escola. Caberá ensinar à escola todo o tipo de orientação sexual, sem qualquer fundamentação científica, ou apenas ensinar a educação sexual básica? 

Nunca esteve em causa a existência da disciplina de Cidadania, aliás, como é que poderia estar em causa numa sociedade de cidadãos? Tem toda a razão de ser e de fazer parte do currículo escolar. O que está em causa são alguns conteúdos da disciplina, que, de facto, merecem muitas reservas, como é o caso da ideologia de género que está muito presente na educação sexual da disciplina. Até prova em contrário, foi preciso chegarmos ao século XXI para se produzir uma das mais aberrantes teorias sexuais, que afirma que ninguém nasce masculino ou feminino, tudo isso é uma construção social, e que se pode trocar entre masculino e feminino, independentemente dos órgãos sexuais. A nossa imaginação é surpreendente. Há alguma necessidade de se andar a ensinar e a espalhar estas pseudoteorias na escola, lançando-se uma profunda confusão e perturbação nas crianças e jovens?

A escola deve servir acima de tudo para ajudar a pensar sem pressa de impor nada, de formar cidadãos livres, com espírito crítico, que sabem pensar e adquirir conhecimento, agir sempre com inteligência e responsabilidade, e não para domesticar meninos e meninas para os interesses de grupos, doutrinar com modas sociais ou formulações ideológicas de duvidosa certeza e progresso.

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