Ernesto Areias

Tempos duros

O Nobel peruano Vargas Llosa, há anos a viver em Madrid vai lançar um novo romance com os olhos na América Latina, onde nasceu e sofreu às mãos da ditadura.


Conhece as ditaduras sul-americanas e os processos de ingerência dos USA, sempre dirigidos no mau sentido, no sentido da destruição da democracia e do apoio sem vergonha à ascensão de ditadores e imbecis ao poder que convertem em meros serviçais, e seus lacaios.

Apesar dessa tragédia, que o inimigo do norte impõe aos povos submissos e empobrecidos do sul, a verdade é que o comum dos cidadãos adula o sistema americano e vacila ante a sua grandeza sem qualquer laivo de reflexão.

Nos seis momentos de ditadura, em muitas casos sangrentas, na Argentina a partir dos anos 30, na deposição de Salvador Allende em 1973, substituído pelo tirano Pinochet com os Chicago Boys, economistas ultraliberais da escola de Chicago, a destruírem a economia chilena  e no golpe mais recente de deposição de Dilma Roussef, no Brasil, os USA estiveram  presentes a manobrar os cordelinhos que levaram à destruição da esperança e ao recrudescimento das desigualdades e da pobreza na quase totalidade dos países da América Latina.

O Brasil com a burguesia anafada investe biliões no imobiliário nos USA, enquanto o povo definha em favelas imundas, onde crescem hordas de pobres e o narcotráfico. Será sempre o país do futuro, de um futuro que nunca será presente pela ação malfazeja do inimigo que imita sem sucesso.

Vargas Llosa, socorrendo-se de uma simbiose de ficção e de factos históricos, investigados de forma rigorosa conta-nos a história da deposição, através de golpe de Estado do presidente guatemalteco, Jacob Ardens no seu novo romance “Tempos Duros”.

A democracia na Guatemala que se projetava no caminho do desenvolvimento era falada, comentada e admirada sobretudo nos meios universitários, causa de mal estar nos vários países onde havia ditaduras por todo o continente sul-americano.

Porque as coisas estavam a correr bem na economia, na reforma agrícola, no ensino e na ordem social, os americanos lançaram mão de uma fake new convencendo o povo de que Jacobo Ardens estava a preparar o seu pais para a intervenção soviética e instauração do sistema comunista.

Com o apoio da CIA e do ditador da República Dominicana Trujillo, o golpe de Estado vingou e Jacobo Ardens foi destituído. Apesar de o golpe de Estado ter ocorrido em 1954, a ingerência norte-americana continua a ser nota dominante.

Nada melhor do que a literatura, do que um bom livro de análise politica e sociológica para explicar a realidade.

O entendimento do mundo e a profundidade do pensamento critico assentam na leitura e na reflexão que a literatura escrita e oral desenvolvem.

Desde as primeiras fogueiras das tribos de Sapiens que aprendemos e chegamos ao conhecimento do mundo através de metáforas e narrativas mitológicas.

 Os tempos continuam a ser duros porque uma chaga de cinismo e maldade se pendurou nos fios do tempo. 

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