Ernesto Areias

Mercearias da mente

A crise sanitária que vivemos, há muito anunciada por historiadores, virologistas e gente da ciência em que se incluem investigadores do ambiente e ecologia, constitui um desafio sem precedentes nas últimas décadas. 


Desafio para a ciência que tem respondido com eficácia, quando se anuncia uma vacina com probabilidades de sucesso; desafio para os hospitais, a braços com exigências excepcionais e desafio para os profissionais de saúde, sobretudo para os que estão na linha da frente que revelam espírito de missão, quando estão em causa a saúde e a vida das pessoas. 

Os próprios Estados, sem varinhas de condão para resolver situações de emergência, se veem confrontados com a economia paralisada sem deixar de ter em conta os efeitos devastadores da crise de 2008 ainda por debelar. 

É obvio que não sobejam os meios financeiros e o tempo, apesar de não serem poupados esforços para que tudo corra o melhor possível evitando o colapso dos serviços de saúde.

Do lado oposto deste esforço, estão os negacionistas, ignorantes que em tudo veem conspirações, que ousam negar a ciência, que desrespeitam os investigadores mais notáveis, as indústrias dos medicamentos e tudo quanto extravase a sua cabecinha pouco provida de entendimento.

No meio da profusão de medidas preventivas, tocou-me uma decisão da Bélgica que permite que as livrarias continuem abertas, considerando o seu serviço de excecional importância para os cidadãos, que com o acesso aos livros poderão vencer situações de confinamento, de permanência em casa e de teletrabalho para além de satisfazerem as  necessidades dos que, com regularidade, a elas recorrem para atualizarem o seu conhecimento sobre as novidades editoriais.

Esta medida trouxe-me à memória uma queixa recorrente de intelectuais oposicionistas ao Estado Novo que eram privados de livros, papel e lápis na prisão. 

Essa privação constituía uma forma de tortura não menos brutal do que as agressões físicas. Do mesmo modo, a ausência de notícias e de contacto com o mundo exterior eram formas de tortura.

No oposto desta privação, recordo uma passagem da escritora chilena Isabel Allende que contava que a família ia à livraria fazer as compras do mês como se o espaço fosse uma mercearia da mente, tão necessária como as mercearias onde se compram alimentos e utilidades.

Ontem, 9 de novembro de 2020, a RTP 1 teve a feliz ideia de apresentar um programa com a escritora Lídia Jorge. Que felicidade tê-la ouvido falar do seu Algarve Natal e das experiências e reflexões literárias. 

Que diferença entre o programa com Lídia Jorge e  os comentadores desportivos a bolçar banalidades horas sem fim.

Sabemos que a universalização da escola não debelou a ignorância apesar dos esforços.

Acredito que as televisões com uma grelha de programas voltada para a cultura e os livros dariam um safanão neste estado de coisas, ajudando os cidadãos a encontrar novas prioridades.

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