Ernesto Areias

Fato à medida

Tornou-se comum, os cidadãos olharem para os sistemas políticos e para a atividade dos governos como quem observa e deseja um fato à sua medida.


Pretende-se um Estado minimalista para pagar impostos e um Estado paternalista para receber benefícios. Não falta quem seja abertamente contra o sistema nacional de saúde, mas exija ser tratado com dignidade e eficiência taumatúrgica, quando a ele recorre ou quando é hospitalizado e, se possível, não pagar uma simples taxa moderadora de poucos euros.

Queixam-se das pensões de reforma, mas nunca entregaram um cêntimo de contribuições para acautelarem o envelhecimento, esperando os benefícios que o Estado lhes possa oferecer com generosidade.

São os mesmos que desprezam a escola pública, mas querem um sistema privado de ensino e educação pago pelo Estado porque os seus meninos não podem misturar-se com os filhos do povo. Era o que faltava! Mas que pague o Estado, o Estado minimalista que defendem para assumir obrigações, mas que seja paternalista e protetor nas horas de maior aperto e necessidade.

Continuam a ser os mesmos que gulosamente privatizam os lucros obtidos nas suas empresas e que, quando a coisa corre mal, pretendem que sejam nacionalizados os prejuízos à custa do erário público.

Da mesma forma, arriscam o que não devem no mercado acionista mas, quando as aplicações correm mal, logo vêm dizer que foram enganados, que não sabiam, devendo ser o Estado a suportar a aventura.

São os mesmos que querem para si um Estado justo e para os outros um Estado justicialista, castigador, arvorando-se em legisladores da repressão, quando não lhes toca pela roupa ou aos seus.

Não querem os filhos no serviço militar mas querem que os dos outros defendam o país. 

Em regra, para estes cidadãos o mundo começa na sua casa e termina na rua ou cidade onde residem. Para eles tudo, para os demais nada ou quase nada.

O que é verdadeiramente importante são eles próprios, se possível que o Estado aumente apenas os funcionários da sua classe e defenda os seus interesses particulares.

Vivemos neste mundo dicotómico almejando sempre sol na eira e chuva no nabal.

O tempo presente reclama de cada um de nós mais profundidade de pensamento, de modo a interpretarmos a complexidade da sociedade atual.

Passamos a vida divididos entre os que reflectem e os conformados com verdades superficiais, como se delas dependesse o abastecimento dos celeiros. 

É esta a diferença entre democracia e populismo; entre estudo e superficialidade; entre subordinação e liberdade; entre o que são os deveres e o que são os direitos de cada cidadão.

Recordemos Vitor Hugo que dizia: 

A água que não corre forma um pântano; a mente que não pensa forma um tolo. 

Talvez vivamos num pântano rodeado de tolos que acreditam terem a chave para darem  rumo ao mundo.

Afinal, conhecem os tolos o que os sábios ignoram como se o eixo da terra girasse em torno do próprio umbigo.

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