Adérito Silveira

Dezembro era o mês abençoado da paz

Naquele distante ano de dezembro a serra estava branca, como lençol estendido a corar junto aos velhos tanques de Mateus.


O chão mostrava sulcos de chancas e rodados abertos de carros de bois do Regada, do Alberto Rainho, Zé Facote, Joaquim Figueiredo, Alexandre Vadio e outros.

 O céu escurecia e rapidamente caíam flocos de neve cheios de encanto! Percetíveis quando a sua algidez batia na cara ou nas mãos.

Sim, a neve era farta em fagulhas luzentes, farrapos dobrados, deixando tudo branquinho como se o mundo não tivesse outra cor. Era uma delícia vê-la no ar bailando, rodopiando entre si como graciosa dança de corte.

A neve caía ininterrupta e difusa e as pessoas caminhavam felizes pisando-a, ao mesmo tempo que agradeciam aos céus a bênção que de cima descia.

E os caminhos em breve ficaram coloridos com aquela alcatifa fofa… e o gado lá passava meio perdido, salpicado nas guedelhas, sem orientação nem bússola, porque tudo era branco de alvura celestial.

Já mais perto do Natal, a neve era mais densa e a canalha rebolava-se no chão, brincando até ficar encharcada. Entretanto, as lareiras crepitavam fulgurantes com a melhor lenha e os potes fervilhavam com água dentro à espera que neles alguma coisa entrasse para servir de refeição. Nas lareiras mudavam-se as roupas dos jovens que lá fora se tinham divertido na construção de bolas de neve. 

As noites eram de sonhos lindos porque o vislumbre da neve a isso ajudava… eram sonhos de asas brancas que desciam junto às vidraças, umas atrás das outras, durante toda a noite, enquanto o sono durasse.

De madrugada, um lençol branco e espesso que cobria a terra. E os passarinhos lá andavam saltitando nos espaços desnevados, voando entre palhiços, debicando no esterco que dos baixos das casas saía. Era um quadro inspirador, espécie de epifania… era cândida a natureza como noiva a noivar à espera de um beijo espiritual… e os barracos e casas velhas, assim pintados, eram palácios onde dentro moravam fadas e anjos.

Nas eiras, os pardais voavam rasantes em chusma… cantavam os galos nas capoeiras, cacarejavam as pitas baixo. O mundo assim tão belo parecia um presépio: um bálsamo espiritual.

Persistia a alvura nas sombras e na beira das casas e dos caminhos. E os melros tocavam os címbalos lá para os giestais… todos os animais na aldeia anunciavam o milagre da natureza com vozes de perfeita harmonia. 

Diriam os ouvidos mais sensíveis que se estava perante a idílica pastoral de Beethoven.

Com a neve como fonte de inspiração, os jovens tangiam os seus violões e cantavam em voz afinada: “Glória a Deus nas alturas e paz aos homens de boa vontade.” Depois… o mundo era de Paz.

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