Luís Pereira

Os Mesquinhas do património

Os efeitos de ações mesquinhas perpetuaram-se no tempo através da salvaguarda de arte e arquiteturas, que em muitos casos são determinantes para o desenvolvimento económico de regiões, lugares e cidades, um pouco por todo o mundo.


Quem imaginava há 20 mil anos que a sua “arte” ia originar tamanho fascínio no homem do futuro, e que milhares de pessoas visitariam os seus “ateliers” e contemplar as suas obras? Antes da pandemia, o Parque Arqueológico do Vale do Côa atraiu mais de 100 mil visitantes e criou receitas que rondavam os 360 mil euros. Contudo, não se compreende como a importância cultural que uma gravura rupestre representa para humanidade é banalizada pelo Ministério Público português.

Em 1889, em pleno centro de Paris, aquele “monstro” que não agradava os habitantes foi preservado, e passados 130 anos cerca de 6 milhões de pessoas visitam a Torre Eiffel, gerando um lucro de 60 milhões ao ano. Quem imaginava que preservar uma arquitetura medonha, tal como se via a Panreal, no futuro podia dar um lucro gigantesco à sociedade através de novas utilizações? O Papa Bento XVI, no século XVIII, proibiu a destruição do coliseu de Roma para aproveitamento da pedra para construções, e este monumento chegou ao século XXI como um polo atrativo de turismo com cerca de 7,5 milhões de visitantes e um lucro de mais de 35 milhões de euros ao ano. O Marquês, que nem da terra era, em 1757 manda colocar marcos num território e fazer uma das regiões demarcadas mais antigas do mundo e que são visitados por mais de 1 milhão de turistas que procuram descobrir o Alto Douro Vinhateiro.

Ações como estas fizeram com o que agora é património seja visitado, admirado, estudado e procurado por milhares e milhões de pessoas. O avanço do pensamento de uns poucos faz com que desafiem velhos paradigmas e correntes científicas, recordando assim a descoberta do Menino de Lapedo em 1998 (um ser híbrido Homo neanderthalensis e Homo sapien) e que precisou de cerca de  20 anos para que esta descoberta fosse considerada como Tesouro Nacional.

Devemos sentir-nos insultados por nos chamarem de mesquinhos quando apelamos ao bom senso e à proteção do património da nossa cidade, da nossa terra ou do país? Não, pelo contrário, devemos sentir-nos elogiados por pertencer a um grupo de pessoas que pela sua mesquinhice vê mais longe que os do seu tempo, e que na sua inocência, proteger um património pode salvaguardar marcos importantes da nossa história e fazer com que seja rentável no futuro.

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