São exemplos daquela exigência a análise que o Papa faz dos textos do Antigo Testamento usados por Jesus, textos enigmáticos como Jo 20,17 (a detenção de Jesus por Madalena, pág. 231), o alcance de alguns gestos como o recurso ao jumentinho e o «hossana» do povo, a dimensão espiritual da túnica, o nome de «mulher» escolhido por Jesus ao referir-se a sua Mãe, o «jardim» da sepultura de Jesus. Essas palavras têm, para além do rigor histórico, uma densidade teológica que o método histórico é incapaz de veicular
Há páginas encantadoras pela sua profundidade e simplicidade: a «verdade» referida no diálogo com Pilatos e trocada pelo oportunismo na cultura política (pag. 157ss), as páginas dedicadas às mulheres junto à cruz que o Papa conclui com as duas dimensões existentes na Igreja (a atitude jurídica e a atitude carismática, pág. 214), o facto e o mistério da ressurreição sintetizados nas páginas 222, 223. Para os padres e estudantes de teologia o livro deve merecer uma especial atenção por alguma novidade em relação aos antigos estudos de exegese com relevo para as páginas consagradas à «Oração de Jesus no Horto» conjugadas com a reflexão sobre «a Morte na cruz como expiação».
A leitura deste livro deve ser repetida para se tornar gradualmente mais clarificadora.
Gostaria de insistir nesta característica. Vivemos hoje numa época mais inclinada à emoção que à razão, mais dada à fantasia que à reflexão, mais sensível aos gostos pessoais que ao verdadeiro. O estudo sério conhece resistências. A tendência muito portuguesa de, nas questões religiosas, não dar espaço à reflexão está na base do alheamento da vida cristã de muitos baptizados, incluindo jovens com estudos secundários e universitários. Muita gente mantém acerca da Bíblia e da fé cristã uma série de lugares comuns que tardam a desaparecer. Por isso, o livro do Papa requer do leitor desejo de saber, vontade de aprender, educa a inteligência e ensina a pensar. É um livro que fica bem nas mãos de um adulto, de estudante, de um universitário, de um dirigente político, de um catequista geral, de um padre, mesmo de um descrente inquieto.
O tema deste volume, como aliás vem na capa, é a última parte da vida de Jesus dividida em nove capítulos correspondentes à sucessão histórica dos acontecimentos: a Entrada em Jerusalém, o Discurso escatológico, o Lava-pés, a Oração sacerdotal, a Última Ceia, o Getsémani, o Processo de Jesus, a Crucifixão e Deposição na sepultura, a Ressurreição.
Ao longo desses nove capítulos perpassam os temas clássicos da cristologia (o Messianismo de Jesus, a Redenção, o Sacerdócio de Jesus, a Ressurreição), mas referidos aqui a partir da exegese dos textos da Bíblia, e não de modo expositivo e pesado.
A proximidade da Páscoa torna a leitura do livro especialmente oportuna, e essa leitura deve concorrer para ultrapassar uma mentalidade romântica que vê a paixão e morte de Jesus como um passo “lamentável”, o “fracasso” de uma carreira brilhante, que o mundo chora na Semana Santa! Ora é exactamente ao contrário: essa parte da vida de Jesus é o ponto ómega, o objectivo final de toda a sua vida, aquilo que Jesus chama a «sua hora», e que a liturgia celebra com paramentos encarnados, a cor do sangue e do amor.
O último capítulo, dedicado à Ressurreição, merece especial atenção. Por sua natureza, o facto da ressurreição de Jesus, diferente das ressurreições de Lázaro, do filho de viúva de Naim e do filho de Jairo (que foram um regresso à vida biológica anterior), não pertence aos fenómenos históricos do espaço e do tempo. Mas, pelo impacto causado nas testemunhas que viram Jesus, a ressurreição pertence de algum modo à história, ou seja, é algo factualmente eficaz. O Papa explica ainda que Jesus ressuscitado não é alguém que haja regressado do «mundo dos mortos» como os casos acima referidos, nem é alguém que haja «fugido para o céu», mas é alguém que se «tornou presente na história do mundo». Essa síntese merece ser bem assimilada porque ela contém a originalidade deste acontecimento e a nossa tentação é remetê-la para os esquemas anteriores.



