IgrejaO ato de crer

O ato de crer

1 – Estamos em pleno Ano da fé, iniciado no passado dia onze e, entre vários exercícios da fé, o Papa propõe a reflexão sobre o ato de crer: «Deverá intensificar-se a reflexão sobre a fé para ajudar todos os crentes em Cristo a tornarem mais consciente, e a revigorarem, a sua adesão ao Evangelho, […]

1 – Estamos em pleno Ano da fé, iniciado no passado dia onze e, entre vários exercícios da fé, o Papa propõe a reflexão sobre o ato de crer:

«Deverá intensificar-se a reflexão sobre a fé para ajudar todos os crentes em Cristo a tornarem mais consciente, e a revigorarem, a sua adesão ao Evangelho, sobretudo num momento de profunda mudança como este que a humanidade está a viver». E mais adiante: «Refletir sobre o próprio ato com que se crê é um compromisso que cada crente deve assumir, sobretudo neste Ano» (Carta A Porta da fé, n.8).

O Papa ensina ainda que o ato de crer anda conexo com a doutrina em que se crê: «De facto existe uma unidade profunda entre o ato com que se crê e os conteúdos a que damos o nosso assentimento»; e explicita a influência negativa da mentalidade atual: «Nos nossos dias, mais do que no passado, a fé vê-se sujeita a uma série de interrogações que provêm duma diversa mentalidade que, particularmente hoje, reduz o âmbito das certezas racionais ao das conquistas científicas e tecnológicas» (nn10 e 12)

São três as questões aqui entrelaçadas: o ato de crer, a sua relação com a doutrina em que se crê e a mentalidade atual. Permito-me fazer uma comparação: assim como a decisão de comer depende muito do prato que nos é apresentado e dos hábitos alimentares, de modo semelhante a decisão de crer depende da doutrina que nos é apresentada como verdade e do modo de raciocinar.

2 – Em si mesmo considerado, o ato de crer estabelece entre duas pessoas uma íntima relação de confiança nascida da honradez da pessoa que se nos dirigiu. Por essa confiança nascer da honorabilidade da pessoa e não da clareza do tema e força de argumentos, o ato de crer requer a vontade e a humildade do ouvinte e representa uma homenagem à pessoa que nos falou A fé é uma relação de pessoas e não mera informação intelectual. Este tipo de relações enche o tecido social, seja em família, seja entre vizinhos, seja entre comerciantes.

Transpondo este esquema para o plano religioso, a fé cristã é uma relação de confiança do homem com Deus, mediatizada pela revelação que Deus fez de si mesmo em Jesus Cristo. Essa revelação só pode ter como finalidade a comunhão com Deus, uma vez que Ele é o absoluto e eterno, e o homem uma criatura, mas essa comunhão coincide, em última análise, com a felicidade do homem. Essa abertura do homem a Deus eleva o homem, torna-se um ato meritório e aproxima-se da obediência. Dada a altura do salto, supõe uma ajuda especial de Deus.

Percebe-se que no ato de crer estão subjacentes uma série de perguntas sobre Deus e a pessoa de Jesus, sobre a correta transmissão da mensagem e a fiabilidade da Igreja como sua fiel depositária, perguntas que podem ser feitas antes ou depois do ato de crer. São os tais pressupostos ou preâmbulos da fé, de que falei no texto anterior, e que, pela sua especialização, não podem ser aqui tratadas de modo exaustivo. As pessoas iniciadas na teologia encontrarão nos dicionários oficiais da doutrina católica e nos pesados tomos da teologia fundamental exposições suculentas desse percurso. Mais próximos de nós estão os depoimentos dos convertidos.

3 – Recordo a análise do ato de fé, integrada no relato da sua conversão, feita há oitenta anos por Manuel Garcia Morente, professor de filosofia em Madrid, refugiado em França por motivos políticos, e que mais tarde se converteria à fé católica. É uma exposição brilhante e comovedora de um verdadeiro pensador e de um crente.

A reflexão sobre o ato de crer aproxima-se do relato de um grande amor, onde se cruzam impulsos da inteligência e da vontade e da graça, e isso ajuda a perceber o que temos de fazer da nossa parte e o que temos de agradecer a Deus e aos outros. A proposta da fé não é uma proposta cultural, mas é o encontro de duas pessoas, o cruzamento de dois olhares que vai crescendo até ao casamento. Há um momento em que, para crer e para casar, é preciso querer.

Essas propostas de Deus variam de pessoa para pessoa, e é isso que constitui o encanto da literatura dos convertidos. Já nos Evangelhos foi assim. O caminho de Pedro não foi o de Paulo, nem o de André foi o de Bartolomeu, mas todos tiveram algo de comum: captar o apelo, um tempo de reflexão e a decisão. Na altura da decisão, sentiram que envolviam toda a sua vida, e até pensaram que tudo era obra exclusivamente sua. Mais tarde descobriram que andou aí o dedo de Deus. O modo como se conjugam o dedo divino e a decisão pessoal – sem que a intervenção divina ofenda a liberdade humana e esta não desapareça diante da moção de Deus –, ultrapassa-nos. A nós basta-nos fixar as duas pontas do fio. Por isso dizemos que a fé é um dom de Deus e é um ato meritório do homem.

4 – As dificuldades que a profunda mudança e a diversa mentalidade, particularmente hoje, oferecem ao ato de crer, incluem a redução das certezas racionais ao das conquistas científicas e tecnológicas. É o império do saber experimental e matemático, frequentemente atrelado ao controle das coisas e á busca de benefícios económicos e bem-estar. Toma–se como certo e benéfico unicamente o que pertence a esse tipo de saber. Ora a maior parte das nossas certezas é de outro género, como a certeza que se capta, por exemplo, no sorriso dos olhos de alguém que se cruzam com os nossos. «A verdade e a certeza desse sorriso nunca se poderão medir matematicamente, e nem por isso são menos seguras» (J.Trutsch). São as certezas vitais que dão o sentido para a vida, e não o controle da terra nem da abóbada celeste. A certeza da fé cristã pertence a esse tipo de certezas, pois Jesus Cristo é alguém vivo e nosso contemporâneo.

Por causa da exclusividade daquele saber técnico e da busca do «eficaz» e do «útil», o homem de hoje tem dificuldade em ascender a outro patamar da vida. Faz-me lembrar a história algo macabra do mendigo que, sentado à borda do caminho de um santuário, expunha aos peregrinos uma perna coberta de moscas. Um peregrino, comovido, fixou a perna e sacudiu-lhe as moscas. «Ai o que o senhor foi fazer!», lamenta-se o mendigo. «Preciso das moscas. São elas que enchem o prato».

 

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