Com olhos negros que transparecem a curiosidade própria da idade, Yoseph Melat é um bebé doce, dado, simpático, que estica os braços a um bom colinho. O seu dia a dia é marcado pela rotina característica de uma criança, mas, quando crescer, vai perceber que a história da sua vida resultou da coragem de uma mãe lutadora que sonhou com um futuro melhor. Ysake Melat fugiu da Eritreia e chegou a Bragança a 22 de julho de 2016.
De rosto jovem, sorridente e bem disposta, com alguma timidez à mistura, Melat conversa sobre a sua experiência em Bragança e como estes quase doze meses têm acontecido. Da viagem pouco fala, pois, como lembra, “não quero chorar, não me quero emocionar”, mas já de Yoseph… solta um oh!, acompanhado de um sorriso aberto.
“Quando o Yoseph nasceu (30 de outubro de 2016) chorei muito. Era o meu primeiro bebé e custou, doeu. Estava apavorada. Mas agora tudo bem. E gosto de Bragança, das pessoas simpáticas que sempre me ajudam muito”, revela no seu português mesclado de outras línguas. Enumera os afazeres quotidianos e, com orgulho, faz questão de explicar a receita da sopa do pequeno Yoseph: “Cenoura, batata, alface, água, e pouco azeite”.
As madrinhas do coração
Sempre agradecida ao apoio de todos os técnicos e voluntários, Melat, católica ortodoxa, recorda o batizado do bebé, dia 15 de abril na Catedral de Bragança, numa cerimónia celebrada pelo Bispo de Bragança-Miranda, D. José Cordeiro, durante a vigília Pascal: “Foi muito bonito, gostei muito, uma grande festa, com muitos amigos”.
Eugénia Pires, do Gabinete de Comunicação da Santa Casa da Misericórdia de Bragança, é a madrinha. “O convite surgiu depois de um episódio caricato. Em África têm a tradição de comer muitas bananas durante a gravidez, pois acreditam que o bebé assim nasce forte. No entanto, esquecem-se dos efeitos secundários provocados pela ingestão excessiva do fruto. Uma noite a Melat sentiu-se mal e foi para o hospital de madrugada, acreditando que seria o momento em que o bebé nasceria. Fui ao hospital e ela ficou tão sensibilizada com a situação, tendo-se sentido reconfortada com a minha presença, que me disse que quando nascesse o bebé eu seria a madrinha. E assim foi”, recordou a técnica.
Porém, o pequeno Yoseph tem outras madrinhas, as do coração, como Daniela Ruivo, enfermeira na SCMB. “A Maria, outra refugiada, e a Melat são as minhas amigas e farei tudo o que puder por elas”, contou. E tudo tem sido mesmo tudo. Daniela ensinou os primeiros passos da maternidade, acompanha as refugiadas a consultas, passeia com elas, auxilia nas compras domésticas, ajuda nas deslocações a Fafe e ao Porto para que possam conviver com famílias na mesma situação ou frequentar, no caso da Maria, o culto muçulmano, aconselha em situações de doença e sempre que é necessário está presente. Daniela entregou-se totalmente a esta causa, chegando a trocar as suas folgas para colmatar todas as necessidades das refugiadas. Sempre que Melat trabalha e o colégio do pequeno Yoseph está encerrado, a voluntária leva-o para sua casa, sendo já um membro da família: “Quando o Yoseph fica comigo, já tenho tudo preparado. Faço as sopas, tenho papas, a casa equipada e no carro a minha baby coque”, explicou emocionada, acrescentando que a hipótese de um dia os ver partir é muito penosa: “espero que fiquem cá, pois isto deixou de ser voluntariado e passou a ser uma grande amizade”.
Tal como Daniela, outras voluntárias acompanham as famílias de refugiados, todas expectantes com o crescimento e desenvolvimento dos bebés, ansiosas por descobrir como irão lidar com culturas e línguas tão diferentes.
Futuro incerto
O que Melat não quer recordar foi a sua viagem com partida da Eritreia para o mundo. Grávida, percorreu a pé quilómetros que a conduziram ao Sudão, Líbia, Egipto, embarcando nos barcos da esperança rumo a Itália. No mar, os dias tornaram-se pesados, vividos por multidões apinhadas, sem condições, em que o convívio com a doença e morte deixou de se estranhar. Contudo, Melat foi afortunada e chegou ao campo de refugiados italiano onde o seu estado de graça lhe conferiu melhores acomodações. Depois veio para Bragança e toda uma vida nova.
Mas, esta nova vida está a prazo. Melat e Yoseph, tal como Maria Mustapha e o seu filho de um ano de idade nascido em Itália, Abdel, oriundos da República Centro Africana, estão em Bragança ao abrigo do programa “Par Famílias”, promovido pela PAR, Plataforma de Apoio aos Refugiados para o acolhimento e integração de famílias de refugiados, um projeto com a duração de dois anos que pretende contribuir para a estruturação da sua vida. “Temos que tentar promover ao máximo a sua autonomia uma vez que, a partir do momento em que o programa termine, elas terão que ser independentes, apesar de estarmos na retaguarda”, explicou Catarina Vaz, diretora técnica da Casa Abrigo de mulheres vítimas de violência doméstica de Bragança e responsável pelo programa.
Melat quer ficar, quer trazer a família, mas tem medo de não conseguir suportar as contas. Melat e Maria trabalham na lavandaria da SCMB e quase todo o dinheiro que ganham é enviado para as famílias, sonhando com um novo reencontro. “Envio muito dinheiro para a minha mãe. Pago-lhe casa e comida”, explicou a mãe de Yoseph, acrescentando, com as mãos junto à boca: “ela passa muita fome”. Depois vêm as contas da água, luz, internet, gás, renda, que estes dois anos são asseguradas pelo programa, e Melat diz não saber como será quando terminar a ajuda. Apenas uma certeza na sua indecisão: sabe que não quer voltar para África.
O olhar de Melat já não denuncia o choque e a violência da viagem. Está satisfeita e cumpre o seu objetivo, ajudar economicamente a família. Sonha com a reunião no futuro, mas, para já, as saudades são colmatadas através da internet e com pequenas encomendas que recebe com um cheirinho a casa.
Um projeto de vida e de sonhos
Ysake Melat e Maria Mustapha, e os filhos Yoseph e Abdel, respetivamente, são as duas famílias de refugiados em Bragança, acolhidas ao abrigo do programa “Par Famílias”. O projeto de acolhimento contou com a colaboração de diversas entidades, como PSP, SEF, Segurança Social, Finanças, ULSNE, Instituto Politécnico, entre outras, tendo sido estabelecidos protocolos no sentido de preparar a sua vinda e facilitar a sua integração. “Quando chegaram tiveram uma casa remodelada e equipada ao dispor e logo uma consulta no centro de saúde, tendo-lhes sido atribuído médico de família, tudo no sentido de haver uma boa integração”, explicou Catarina Vaz, acrescentando que as famílias têm um acompanhamento permanente de colaboradores da SCMB. “Tudo temos feito para estruturar o seu projeto de vida e o nosso objetivo é que se sintam plenamente integradas na comunidade, que está sempre de portas abertas para as receber”, sublinhou a diretora. Referiu ainda que Bragança tem condições para receber mais refugiados, tendo manifestado essa vontade junto da PAR.




