Adérito Silveira
Adérito Silveira
Maestro do Coral da Cidade de Vila Real. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

O Brás

Antigamente contavam-se histórias, quase todos os dias nos serões de família à lareira. As histórias contadas pelos pais ou pelos avós fascinavam porque continham valores morais, valores de solidariedade, sobretudo quando os mais novos ajudavam os idosos nas várias tarefas do campo ou do lar.

Essas histórias deslumbravam todos quantos se juntavam no conforto da família à volta da enferrujada e tóxica lareira. Ali, naquele nicho encantado o elo familiar era forte e a vida fazia sentido.
 

Que tempos esses em que se participava em quase tudo e ainda se ia às festas populares com bailes no meio das ruas ou nas estradas alcatroadas, onde os pares eufóricos rodopiavam, poupando os sapatos ao pó que invadia os ares, confundindo-se por vezes com o mosquedo abundante que aferroava as bestas. Eram tempos em que não havia uma vaca que não tivesse nome próprio e havia diálogos entre o animal e o seu proprietário. Eram tempos em que o sustento de cada casa dependia nas aldeias da saúde dos animais de trabalho…

Em dias de festa, o colorido dos arcos e das bandeiras mudava os rostos das pessoas e também as ruas normalmente empestadas de bosta dos animais, configuravam agora um visual limpo e um cheiro diferente e agradável… respirava-se melhor e quando as bandas filarmónicas chegavam ao largo a alegria era geral. Os cães com os focinhos no ar e o rabo a abanar apercebiam-se de algo de diferente e latiam forte quando os foguetes estoiravam em várias direções …os fumadores, com a alegria dos foguetes e o toque da banda chupavam sofregamente os cigarros, uns atrás dos outros…

Sobre histórias de bandas filarmónicas há episódios hilariantes, próprios de músicos distraídos ou mesmo convencidos, com o ego inflamado, vaidosos do seu papel de artistas. Por vezes não olhavam a meios para darem nas vistas e ufanos, iam tocar serenatas às donzelas a precisarem de casar… Um dia, num ano distante da década de 40, houve uma grande festa numa aldeia transmontana… Havia a inauguração de um fontanário público e a pavimentação da rua principal… impunha-se convidar gente importante do concelho… O Bispo de Bragança também marcou a sua magna e santa presença…

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A banda tocava virada para a tribuna de honra… Os músicos, perfilados, sopravam com redobrado entusiasmo de peito cheio e de vaidade porque mesmo à frente estava gente importante, homens da política, da Igreja e pessoas influentes no peso da “cunha”. O Presidente da Câmara alto e esguio apresentava-se também ele solene na postura, direito como se fosse uma estátua, hirto nas faces, salientando-se a nobreza do bigode e do nariz.

Entre os filarmónicos havia um veterano que tocava trombone mas que não se conformava com as poucas notas que a sua pauta exigia… O que ele tinha que tocar limitava-se praticamente a três notas aborrecidas e repetitivas. Três sons apenas que o humilhavam, aborreciam e martirizavam…

Não se conformando e tentando dar nas vistas, o músico sopra forte esses massacrantes sons insuflando as bochechas, com tal violência que não passaram despercebidos ao mestre da filarmónica. Este, sorrateiramente aborda-o por trás e sem se fazer notar sussurra-lhe ao ouvido: “Ó Brás toca mais baixo, porra…” O filarmónico pensando que se tratava de um qualquer curioso e analfabeto em música dispara-lhe ironicamente:” Deves saber muito disto, deves…” 

Desconfiado da voz que não lhe era estranha, deixa de tocar e olha para a imponência do homem que o repreendeu e vendo que era o Mestre ficou possuído de vergonha e até ao final da marcha aqueles três sons não passaram de três tímidos pios, gemidos de velha ou segredos de freira em ato cerimonial de confissão… No final da marcha as pernas do Brás, negavam-se-lhe a andar e o peito arfava-lhe, tropeado na angústia da vergonha… Nos ensaios que se seguiram, o Brás não teve coragem de aparecer, receando que o Mestre da filarmónica e mesmo os colegas o injuriassem e humilhassem…

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