Vindos das mais diversas partes do globo reuniram-se diante da Porciúncula, tendo o Papa justificado a escolha da cidade de Assis, para esta jornada de oração pela paz. É que ali é conhecido e venerado S. Francisco, por gente de todo o mundo, como símbolo da paz, reconciliação e fraternidade. Ele foi o homem que abateu fronteiras e abriu portas à fraternidade universal, pois considerava como irmãos não só os homens, mas ainda todas as criaturas.
Depois da saudação inicial, cada grupo religioso reuniu-se para, de acordo com a própria espiritual idade, elevar ao seu Deus veementes súplicas pela paz.
No momento de despedida o ambiente era outro: maior a aproximação e diferente a disposição de espírito dos participantes. A mensagem de paz e bem, vivida e anunciada por S. Francisco, e se respira ainda em Assis, parece ter contagiado os participantes neste encontro, que ficou a ser conhecido por «O Espírito de Assis».
Depois deram-se vários acontecimentos humanamente inexplicáveis: a guerra fria abranda, Gorbatchov encontra-se com o Papa em 1988 e, para festejar, no Kremelin, o milénio cristão da Rússia convida representantes das religiões. Em 1989 dá-se o derrube do muro de Berlim e, pouco depois, em 1991, a queda do comunismo na Rússia.
Em 1996, João Paulo II, reflectindo sobre estes acontecimentos, confessava: «Conforta-me profundamente constatar que a semente lançada há dez anos, continua germinando. Não rezamos em vão naquele ano na cidade de Assis».
Entretanto, a libertação de várias nações do poder totalitário criou novos problemas, desencadeando ódios, em indivíduos mais fundamentalistas e radicais, originando uma onda de terrorismo organizado, que culminou com a terrível tragédia de 11 de Setembro de 2001, em Nova Iorque.
Perante a real incapacidade dos homens para encontrarem o caminho da paz, João Paulo II convida de novo os representantes de todas as religiões para outro encontro em Assis, pedindo que se fizessem instrumentos de paz porque o ódio e a guerra não levam senão a outra guerra. Esse encontro realizou-se a 24 de Janeiro de 2002, com programação verdadeiramente inédita e impensável antes de 1986.
O Papa, promotor do evento, e mais de 300 participantes, em comboio especial, saíram da estação ferroviária do Vaticano rumo a Assis. Durante as duas horas de viagem tiveram oportunidade de conversarem e conhecer-se. É interessante o testemunho do então cardeal Ratzinger, hoje Bento XVI, que fazia parte da comitiva: «Acho alentador que pessoas de diversas religiões façam juntas esta viagem, rumo a Assis. Atravessar a terra: já gosto desta peregrinação, estamos numa grande confraternização».
Esta confraternização veio a intensificar-se depois, no almoço que tomaram juntos. Chegados a Assis, depois de breve troca de testemunhos de representantes de varias religiões, o Papa reafirma a convicção de que não existe finalidade religiosa que possa justificar a prática da violência.
De seguida, divididos em grupos, segundo a própria religião, todos dedicaram largo espaço de tempo a rezarem pela paz entre os homens.
O último acto do encontro, à sombra da Basílica de S. Francisco, foi emocionante. Alguns judeus saltaram para cima do palco para oferecem ramos de oliveira, símbolos da paz.
O rabino de Israel diz, dirigindo-se directamente ao Papa: «Obrigado! Só o senhor podia convocar um encontro como este. Mas não podia ser realizado sem nós».
Pela primeira vez na história, representantes cristãos e das grandes religiões do orbe fazem solenemente o compromisso de construir a paz. E o Papa, recolhendo as afirmações dos outros líderes, debilitado de saúde, mas com voz firme, conclui o encontro com estas palavras: «Atrás nunca mais! Nunca mais a violência! Nunca mais a guerra! Em nome de Deus, toda a religião leve à terra justiça, paz, perdão, vida e amor!».
Num gesto simbólico, cada um dos líderes das religiões ali representadas, levou ao palco uma lâmpada acesa, significando a chama da paz que deve aquecer os corações dos homens.
O Espírito de Assis havia produzido os seus frutos. Passados 25 anos ele está presente e deve ser avivado.
Bento XVI, que tantas vezes tem apontado a oração como elo de união entre Deus e os homens e, elemento determinante para uma eficaz pedagogia de paz, resolveu repetir mais uma vez, no 25° aniversário, esse evento, subordinado ao tema «Peregrinos da Verdade, Peregrinos da Paz», convidando todo os católicos a unirem-se em oração a ele e a todos os demais crentes, para que o Espírito de Assis continue a soprar, a fim de responder aos novos desafios que nos lança a actual situação da humanidade.
Sensíveis ao apelo do Papa, na fidelidade ao espírito de S. Francisco, os franciscanos de Vila Real vão celebrar o acontecimento, com uma velada de oração, na Igreja do Calvário, no dia 27 de Outubro, das 21 às 22 horas. Para ela são convidados todos os cristãos e todos os peregrinos da verdade e da paz.
A paz é um dom inestimável, é preciso promovê-la e pedi-la ao Príncipe da paz e Senhor da História.



