A Feira do Fumeiro faz já parte do calendário regional e nacional, assim como outras organizações como as comemorações das ‘Sextas-Feiras 13’ e o Congresso de Medicina Popular de Vilar de Perdizes. Como se consegue fazer de Montalegre um destino?
“Ainda não conseguimos, estamos a tentar… Temos conseguido percorrer algum caminho, mas ainda temos muito a fazer. Tenho algum orgulho de ter feito um trabalho que está no bom caminho e que tem mostrado resultado. Isso foi conseguido com uma boa equipa de promoção da câmara e do ecomuseu. Pessoas que trabalham e que pensam as coisas, que têm muita imaginação, criatividade e competência. Temos, acima de tudo, uma grande paixão por Montalegre e por isso exploramos todas as ideias que nos vão chegando para encontrar as soluções que mais se adaptam à nossa realidade para pôr o concelho no mapa. Com isto tudo, queremos criar mais economia e mais emprego. Queremos pôr a atividade cultural, as iniciativas de lazer e turísticas, o património, tudo ao serviço da economia. Queremos valorizar as nossas aldeias, o território, o mundo rural e a agricultura e pôr tudo isso ao serviço da criação de emprego e da fixação de pessoas. Como é que trazemos tanta gente à sexta-feira 13? Não queremos discutir se apoiamos ou não as crenças, mas a verdade é que vamos ao encontro do imaginário das pessoas. Queremos divertir e fazer cultura. As pessoas vêm cá e criam uma ligação a Montalegre. Temos gente que vem de Lisboa, do Algarve e até dos Açores, e temos os emigrantes que fazem uma interrupção no trabalho. Isso ajuda a economia, mas também tem um efeito importante na autoestima dos barrosões”.
A Câmara terminou o ano com as suas contas em dia, o que é uma raridade no país…
“Não é justo dizer que é uma raridade no mundo autárquico. Muitas vezes, somos injustos nas críticas que se fazem às autarquias relativamente às contas e às finanças locais. Há uma maioria de câmaras que têm as contas em ordem. Obviamente que ter as contas em ordem não significa não dever nada e se há alguém que gastou bem o dinheiro foram as autarquias, mesmo aqueles que gastaram mais do que podiam. Quem fez alguma coisa no país, e sobretudo no mundo rural, foram as autarquias. Se olharmos para o que se fez em todo o Alto Tâmega chegamos à conclusão que foram as autarquias, foi o poder local que mais democratizou o investimento, que o levou à população mais desprotegida. Claro que há câmaras que não cumprem, mas quando uma câmara não cumpre o Governo já não cumpriu cem vezes. Quando uma câmara gasta um euro mal gasto, o Governo já gastou mal mil euros. Além de termos as contas em dia, passamos o ano sem dever um tostão a fornecedores e diminuímos a dívida bancária. Fui sempre austero na vida e na câmara. Não tenho motorista, porque não preciso, só temos dois vereadores quando podíamos ter seis a tempo inteiro, não tenho assessores. Somos todos um bocado atrevidos, fazemos trabalho político, administrativo, técnico. Isso porque os nossos meios são poucos para acudir às 135 aldeias, às 35 freguesias, aos 800 quilómetros quadrados de território. Há uma regra fundamental: temos dinheiro fazemos obra, não temos não fazemos. Mas atenção que não paralisei a câmara, porque no último ano tive a maior realização financeira de sempre. Realizámos 18,5 milhões de euros de conta de gerência, mais 700 mil euros que no ano anterior. Mas temos as contas muito bem controladas, tudo ao milímetro”.
Com um orçamento equilibrado como o de Montalegre faz sentido a reforma administrativa nos moldes em que se fala atualmente?
“A reforma administrativa que se propõem… ainda não se sabe bem o que é. É uma baralhada de coisas, umas ideias. No entanto, temos que fazer alguma coisa, temos que mudar, porque realmente ter hoje a mesma divisão administrativa que tínhamos, nem digo há cem anos, digo há 20 anos, não faz sentido. O concelho tem algumas freguesias com cem eleitores que tem apenas uma aldeia, faz sentido? Temos que admitir que é preciso mudar. Hoje não temos a mesma população, temos acessos em todas as aldeias, temos contacto instantâneo em todo lado, vamos ter banda larga em todo o concelho e as estruturas viárias estão feitas. Precisamos de uma reforma administrativa, mas estamos a começar ao contrário. Esta parece uma brincadeira de reforma administrativa. Para sermos sérios, temos que ver onde estão os problemas. Não são os problemas económicos que vão ser resolvidos com esta redução de freguesias. Se não é para poupar é para quê? Para criar problemas, atritos, divisões e guerras? E para excitar orgulhos e rivalidades? Fazem-se reformas se houver de facto um processo que vá contribuir para o desenvolvimento da região. Devia-se fazer uma reforma a começar pela legitimidade da regionalização. Aí aceito que os municípios percam competências para as regiões. Por exemplo, eu quero fazer a estrada para a A24 mas o município não tem capacidade. Vou fazê-la mesmo que não tenha fundos comunitários, mas se houvesse uma região esta estrada já estava feita, porque já há muito dinheiro esbanjado por muitos municípios. Há muito dinheiro de fundos comunitários gasto em segundas terceiras, quartas, quintas ou décimas prioridades. E deixa-se um município como o de Montalegre marginalizado sem acesso a Braga, que é a nossa cidade do coração, e a Chaves, a nossa cidade mais próxima. Sem acesso à rede de autoestradas.
É na maré baixa que o país mais precisa da regionalização com legitimidade. Só depois se pode avançar para a reforma das freguesias”.
Concorda com a limitação de mandatos?
“Sim. Foi uma boa decisão. Costumo dar o meu exemplo. Estava na oposição e fui durante muito tempo membro da Assembleia Municipal, na altura tinha a ideia de que a câmara era uma ditadura e de que ninguém tirava de lá o então presidente. Agora, olho para mim e digo: já estou há mais tempo na autarquia do que esteve aquele que eu criticava… Há gente que tem 20 anos e que não se lembra de outro presidente. Isso não é bom para a democracia. Não há insubstituíveis e as pessoas que quiserem continuar a dar sua participação cívica podem fazê-lo. Há muitas maneiras de continuar a servir a nossa terra”.
No entanto, nada o impede de ser presidente da Câmara Municipal de Chaves, por exemplo…
“Impede-me a minha vontade. Está fora de hipótese. Não se coloca nem se colocará. Não tem sentido porque só seria candidato a uma câmara se tivesse ligações afetivas. Sempre fui contra os candidatos paraquedistas e não quero sê-lo. Se não houvesse limitação de mandatos provavelmente seria candidato outra vez em Montalegre mas há outras coisas para fazer… Ser candidato só para preencher um lugar não faz sentido. Aliás, nos outros concelhos há excelentes candidatos do Partido Socialista”.
Apesar de todos os esforços, o município continua a perder população. Entre os dois últimos censos teve uma perda na ordem dos 17 por cento. Não há fórmulas mágicas para criar emprego e desenvolvimento, mas qual é a sua visão sobre as possibilidades de conseguir atrair pessoas e diminuir o fosso com o litoral?
“Temos um problema cultural que começa logo na escola. A escola despreza o mundo rural e mete na cabeça de toda a gente os padrões do mundo urbano. As pessoas crescem a pensar que estar nas grandes metrópoles é que é bom, e não se ensina as virtualidades do mundo rural. Depois, a realidade económica e social complementa tudo isso. As pessoas não querem ir hoje para a agricultura por várias razões e uma delas é por esta ser considera um parente pobre da economia, por ser considerada uma atividade desprestigiante. Foi a sociedade que fez isso. Mas, como tudo, a agricultura evoluiu e pode ser feita noutros moldes. Por outro lado, os subsídios são dados para matar a agricultura. As pessoas recebem dinheiro para não trabalhar. Os mais novos, mesmo que não tenham outra solução, não apostam na agricultura, porque não têm apoio para se instalar. Anda tudo às avessas, por isso é muito difícil descalçar essa a bota. Por mais imaginação e criatividade que tenha, um autarca não consegue sozinho… Todo o interior perdeu população, o que não quer dizer que os autarcas sejam todos incapazes. Todos têm os mesmos problemas, apesar de alguns terem feito coisas extraordinárias ao nível da valorização do património, de valorização do território, de apoio social e qualificação humana, da promoção turística e do investimento na área cultural. Mas isso não chega. Não há milagres. A solução para inverter o êxodo do mundo rural não depende só dos autarcas. Para que queremos um Governo que anda a gastar dinheiro com os jovens para depois dizer que não há emprego. Não nos podemos render. O Governo não pode resolver todos os problemas, mas admira-me que ande em bicos de pés a dizer que o importante é ir mais além, andar mais depressa… mais além na desgraça, no desemprego?”.




