Quinta-feira, 7 de Julho de 2022
Adérito Silveira
Adérito Silveira
Maestro do Coral da Cidade de Vila Real. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

O mordomo

O calor apertava. A banda iniciava a arruada com a fulgurante “Marcha Europa.”

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Os músicos não adivinhavam o que os esperava. Abaças fazia a sua festa no dia 15 de agosto em honra da Senhora da Guia.

Cinco horas de arruada, sem tempo para respirar, não estava ao alcance de qualquer filarmónica. Mas os músicos de Nogueira estavam habituados a serviços difíceis onde o espírito de sacrifício era um imperativo justificado pelo amor à coletividade. O mordomo de nariz empinado pedia aos músicos passo acelerado para que à uma da tarde o padre Monteiro desse início à Santa Missa. De vez em quando lembrava:” vamos, o Senhor Padre não pode esperar…” Ao meio da manhã já as camisas estavam ensopadas coladas ao suor do corpo. Exigia-se aos músicos que tocassem sem parar. 

Mesmo tocando para cavalos, éguas, burros, cabras e cães que passavam em alguns fracos caminhos, os músicos tinham que dar o seu melhor. O mordomo que acompanhava a banda ia vistoriando, verificando se todos os elementos estavam a tocar…na sua pacóvia ignorância ele achava que todos tinham que estar sempre a dar aos foles…

No final de uma marcha interpelou-me acusatoriamente:” ouça lá, ó seu mestre, porque é que há músicos que de vez em quando não tocam?” Respondi-lhe na mesma dimensão da estúpida pergunta: “porque eles não tocam nas pausas… a culpa é do compositor que assim fez a obra…percebe?”  

Em voz moída foi barafustando em palavras que saíam da boca salivada. Com ele andava um homem desengonçado, chupado de rosto, bulímico até. De cada vez que o mordomo fazia exigências aos músicos, a criatura acenava com a cabeça reforçando a ordem do carrasco.

Durante a arruada ainda deu tempo para aliviar o espírito no vislumbre da paisagem que irradiava do encanto poético dos socalcos do Douro vistos ao longe geometricamente desenhados. Profundas ravinas davam à paisagem um ar de magnificência e liberdade.

A arruada terminou exatamente às 13 horas: hora da missa cantada pela banda. Os suores bloqueavam a respiração ofegante. Do padre recebi elogios pela beleza dos cânticos e eloquência das vozes. Da homilia do orador saíram palavras adornadas em perfumes das mais belas flores. Terminada a missa, sai a primeira procissão sem que os músicos pudessem respirar ou ingerir qualquer bebida. Após a execução da contemplativa “Inspiração Divina”, mandei a caixa rufar procurando dar algum descanso aos massacrados artistas. Em vão. Intempestivamente o dito mordomo atrás do pálio virou-se para a banda protestando em espasmos de loucura: “a caixa não rufa, a banda toca sempre…” excomunguei-o em pensamentos, ao mesmo tempo que olhei para o andor, contemplando Nossa Senhora da Guia a pedir-lhe perdão, ao mesmo tempo que implorava à Santa um qualquer castigo para aquela pobre criatura. O coreto para o concerto à noite era pequeno e para lá chegar colocaram um velho escadote por onde os músicos teriam de subir. Tentei, usando palavras mansas perante o mordomo, dispensar alguns elementos com idades avançadas, receando que eles caíssem do perigoso engenho.

 Resposta do mordomo: “nem pensar, nós pagamos a todos… todos têm que subir e tocar.” Mesmo “esmagados” no coreto, o público aplaudiu a Banda de Nogueira. O repertório agradou porque a execução de alguns músicos era de superior qualidade. Em cima do coreto galvanizei-me na batuta recebendo mesmo calorosas palmas de elementos femininos que em subidas minissaias integravam um conjunto típico do Porto…

No regresso a casa, fechei os olhos. Senti o coração. A noite era o universo com a sua infinita harmonia. Não me libertava, no entanto, da silhueta do algoz que enevoava a doçura dos meus pensamentos a precisarem de um descanso absoluto. Antes de adormecer, senti de perto a Senhora da Guia, a transportar-me, cobrindo-me com a sua voz iluminada e protetora…

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