Esses natais trazem-nos imagens poéticas que apelam ao sentido do maravilhoso pela beleza das histórias contadas no fascínio da lareira. O frio era de rachar, cortante, no entanto, salutar. No céu e na terra reinava uma quietude quase arrepiante, uma atmosfera santa, absoluta de sentido de vida solidária.
A neve caía em grossos farrapos que se acamavam em espesso e alvo manto. Hoje, as lembranças chegam-nos de um passado que quase magoa porque nestes tempos de modernices impera o consumismo sem regras, o gastar desenfreado por gastar para deitar fora… mas para quem quer ver e sentir o natal verdadeiro do Deus Menino, há sempre uma luz que faz cintilar as palavras na escuridão da saudade e elas fluem na prosa poética como uma oração bonita a Jesus Menino, renascido em cada Natal para nos fazer lembrar o verdadeiro milagre da vida…
Na minha aldeia, nos anos sessenta, as famílias juntavam-se para a tão desejada ceia de Natal. Num desses anos havia já muitas horas que a neve caía deslumbrantemente convidando todas as famílias a recolherem a suas casas. No imaginário de alguns olhares desciam do céu flocos que pareciam asas de anjos e que acariciavam os rostos sobretudo os das criancinhas que assim ficavam purificadas. Na verdade, no Natal o espírito solidário era uma prática nas aldeias transmontanas. Todos ajudavam para que na noite de consoada houvesse mais calor no coração de cada um. Dentro das casas, uns afolavam e compunham o lume, as mulheres tratavam das rabanadas e da aletria, dos filhós e dos bolos de bacalhau. Nos potes, as batatas fumegavam a todo o vapor, bem como as couves, o bacalhau e a raia… só nas casas mais abastadas o polvo tinha lugar…
A noite da consoada servia também para lembrar familiares já partidos e isso obrigava a que se cumprisse o ritual de uma ou duas orações breves em memória desses eternos ausentes. De imediato todos se acomodavam nos bancos e nos escanos bem perto do lume da lareira aguardando pela almejada ceia. Durante o repasto as lareiras pareciam crescer e as chamas subiam na emoção dos olhares.
Que saudades desse Natal e da neve que como milagre caiu abundantemente. Ela iluminava até a escuridão cava dos quelhos e dos caminhos. No diluir da sua alvura a terra cobria-se devagar e a dor dos mais pobres inscrevia-se como um morrer santo e continuado. Nesta felicidade imensa de sonhos lindos sem fim, pensava-se até que os problemas da vida só haviam de calhar aos outros, sobretudo aos assaltantes de capoeira, aos caçadores da mulher alheia, às beatas falsas, aos caloteiros e invejosos.
De facto o Natal desse ano foi lindo porque a neve a isso ajudou num tropel de imagens e sensações. Os cânticos eram ensaiados nas lareiras para depois serem cantados de porta em porta anunciando através deles o Nascimento do Menino. Cantadas por todos, essas melodias tornavam os corações sensíveis e humanizados. E como reza purificadora, os cânticos libertavam e perfumavam todos os que participavam na festa do Menino Deus, pois inebriavam-se de alegria as pessoas quando o nome de Jesus era proferido e cantado. Todos os anos em Mateus, um grupo de jovens visitava a Casa da Paróquia com cânticos alusivos ao natal. O Sr. Padre Faceira irradiava-se de alegria e os cantores recebiam das suas mãos uma oferta bem generosa.
Os natais eram assim vividos em espírito de união e solidariedade. As pessoas que saíam da aldeia para ganharem o pão lá fora, regressavam sempre no Natal porque tinham guardado no fundo da alma a saudade imensa desta quadra misteriosa e bela.
As fantasias apocalíticas estão no espírito deste tempo… celebrar o Nascimento do Menino Deus nunca foi tão urgente e desejado.




