Domingo, 17 de Outubro de 2021

O Natal e os natais

1 – Onde vais passar o Natal? A quem vais presentear? O que vais comprar? Que campanhas sociais vais apoiar nesta quadra tão dolorosa para tanta gente? Aí está um conjunto de perguntas que se ouvem por toda a parte: todas legítimas, todas saídas do coração, algumas mais generosas que outras. Falta uma pergunta: o que é o Natal? Esta pergunta não invalida as outras, nem as outras dispensam esta.

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A festa do Natal é uma girândola de luzes de várias cores que supõem um acontecimento. Comece-se por um lado ou pelo outro, o indispensável é que se capte a festa e o acontecimento. O nosso Torga conta que nem o mendigo da região se esqueceu dele e, recolhido no alpendre da capela da Senhora da Azinheira, lá ensaiou a cena do presépio fazendo ele próprio de S. José. Ramalho Ortigão ficou-se pela ceia: elegante, generosa e alegre. Vitorino Nemésio teve menos sorte: num ano limitou-se a enfeitar um anjo de papel e, como ele saiu mal, lá se foi o Natal desse ano. Mais tarde aprendeu.

Com estes casos, vai aqui um ramalhete alargado de aspectos culturais, históricos e religiosos do Natal.

2 – Ontem, dia oito de Dezembro, celebramos a festa da Mãe do Menino, a Imaculada Conceição, e no dia 25 será a festa do Nascimento de Jesus.

Todos sabemos desde crianças que o Natal é a festa do nascimento histórico e verdadeiro de Nosso Senhor Jesus Cristo. Que esse nascimento haja acontecido no dia 25 de Dezembro ou noutra data é secundário, como é secundário saber ou ignorar o dia do nascimento de qualquer pessoa. O importante é que se conheçam as referências geográficas e históricas que permitam garantir a sua historicidade, afastando a ideia de um produto de fantasia, como acontece com os heróis da mitologia. Um conhecido agnóstico francês dizia argutamente que o que o incomodava no Credo católico era dizer que Jesus padeceu «sob Pôncio Pilatos», porque isso garantia que Jesus existiu realmente, morreu durante o governo de um homem historicamente datado, e não «no tempo em que os animais falavam».

O nascimento de Jesus não é um acaso, mas um acontecimento programado por Deus, um filho que ultrapassa a Mãe, por Ele mesmo ser Deus. Também vale a pena recordar que o Natal caminha para a Páscoa. A divisão de Janeiro é uma divisão civil, fiscal, administrativa, e não rompe a ponte religiosa que sobe do Natal para a Páscoa: o ano de 2010 terminou na passada festa de Cristo Rei, no penúltimo domingo de Novembro, e o Natal que aí vem é do ano 2011 e atingirá o ponto alto na Páscoa, prolongando-se até ao Cristo Rei.

Por isso, as crianças, os jovens e os adultos que possam, comprem alguma coisa para oferecer, para ajudar o pequeno comércio a ter Natal, e as mães façam a ceia de Natal com a alegria possível. E não se esqueçam todos de ir à Igreja ver o Menino e de falar com Ele: Ele tem boa memória e não se esquece dos que celebram o seu dia de anos.

3 – Em 1910 os republicanos tentaram apagar em Portugal as marcas cristãs e, como passa agora o centenário, vamos recordá-lo brevemente.

Invocando a democratização do país, tentou-se, à imitação do que fizera a França em 1905, a laicização de Portugal. Nos dias a seguir ao cinco de Outubro e nos anos imediatos publicaram-se um conjunto de diplomas que aqui recordo, sem indicação das datas, para não ser cansativo.

O dia 1 de Dezembro seria o «dia da autonomia portuguesa», logo depois mudado para o «dia da Bandeira Nacional»; o dia 25 de Dezembro seria a «festa da família portuguesa» e, a seguir, simplesmente a «festa da família», e eliminando do calendário todos as outras festas dos santos; o dia 31 de Janeiro seria o «dia dos mártires precursores da república», e o dia 5 de Outubro os «mártires da república»; é abolido o juramento religioso, passando as pessoas a jurar pela sua honra; proíbem-se os crucifixos nos edifícios públicos, proíbe-se o uso público das vestes talares (padres e religiosas); são retirados das fortificações militares os nomes dos santos, extingue-se o ensino religioso da doutrina cristã nas escolas, com especial empenho na Casa Pia; proíbe-se na Universidade de Coimbra o juramento do reitor, dos lentes e dos alunos em honra da Imaculada Conceição, que vinha do tempo de D. João IV; anulam-se as matrículas no 1º ano de Teologia nessa Universidade, extingue-se a cadeira de Direito Eclesiástico na Faculdade de Direito da mesma Universidade, proíbem-se as forças armadas de participar em actos religiosos e proíbe-se que nos tribunais e repartições e cartórios públicos se faça menção, ainda que indirecta, da era de Cristo, isto é, a contagem do tempo a partir do Natal de Jesus.

Esta legislação seria mais tarde estendida ao ultramar, e aproveitar-se-ão as homenagens a homens públicos como o polémico bispo de Viseu, D. António Alves Martins, a Mouzinho da Silveira e a Gomes Freire de Andrade, todos três maçons, para prolongar a demagogia e a propaganda.

4 – Algumas daquelas decisões acabaram por se manter actualmente em virtude de a religião católica deixar de ser a religião do Estado como acontecia na monarquia, o que até foi correcto para poder abranger todos os cidadãos.

Mas, a coberto da neutralidade do Estado, tenta-se apagar da sociedade as marcas de Jesus Cristo. Invocando a liberdade, o direito à tolerância e o respeito pelos outros, ainda que esses outros sejam uma minoria insignificante, apagam-se as referências culturais e religiosas. Ora a sociedade civil é mais vasta, anterior e superior ao Estado, tendo direito às suas marcas culturais Nunca entendi muito bem porque é que a tolerância por alguns cidadãos há de levar à destruição do tecido cultural de um povo, e não baste a não imposição da cultura aos estranhos e minoritários dessa sociedade Nivelar tudo por essas minorias não me parece tolerância mas ditadura da minoria e uma subserviência oca. Há anos, não me senti nada ofendido quando fui à Turquia e ouvi nas mesquitas o convite ruidoso para a oração oficial dos cidadãos locais (apesar de o Estado se dizer laico). Também não me incomodou que os guias israelitas falassem aos turistas cristãos da pessoa de «Jesus Cristo» omitindo a palavra «Cristo» e dizendo «Jesus de Nazaré», pois a palavra Cristo significa «Messias» e é sabido que os judeus, tendo embora grande estima por Jesus, não o consideram o «Messias». O que eu já não aceitaria é que nos perseguissem a nós cristãos, ou que eles, para nos serem simpáticos, renunciassem às suas convicções Seria uma bajulação ao turista e carência de personalidade. Os que em Portugal identificam a tolerância com a destruição da cultura portuguesa pertencem a esse grupo: são os mesmos que, ao comentarem os descobrimentos portugueses e espanhóis, acusam os navegadores peninsulares de destruírem as culturas locais e, agora, são eles próprios que destroem a cultura do povo para contentar os adventícios.

Por tudo isto, convém andar atento às expressões culturais e sociais da celebração do Natal. È que ainda há quem chame ao Natal a «festa da família», repetindo inconscientemente o chavão laicista da Republica, quando a «festa da família» é no Domingo seguinte ao Natal. Também não é uma «ceia» embora se celebre em família e se faça uma ceia. Nem é uma partilha de bens, ainda que seja bom fazer essa partilha, sobretudo neste ano. O Natal é, verdadeiramente, a prova de que Deus nem é uma ideia nem está distante e desinteressado do mundo, mas sinal vivo de que gosta do mundo o mundo e este não é capaz de se governar sozinho. Isto, porém, não pode ser desenvolvido aqui.

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