Segunda-feira, 25 de Outubro de 2021

O preservativo e a dignidade sexual

1– Depois de uma festa – sobretudo de uma festa ruidosa com multidões agitadas e onde circularam bebidas alcoólicas –, apetece regressar a um tempo de silêncio e de moderação que ajude a serenar os tímpanos, a libertar o organismo das toxinas acumuladas e a colocar as coisas na sua função normal. É esse o cenário das festas de «passagem de ano» e dos reflexos sociais da festa do Natal.

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Nesses dias multiplicam-se as deslocações e visitas pessoais, enviam-se mensagens por telemóveis e saudações por escrito a ponto de entupir as caixas do correio. Algumas mensagens não chegam a ser assimiladas, e outras morrem no dia seguinte.

Neste ano circulou um livro que foi tema de conversa na altura da sua apresentação e publicação em vernáculo e brinde de Natal entre muitas pessoas: é o livro de Bento XVI, «Luz do mundo. Li-o de um fôlego na noite em que o recebi, sei que muita gente o adquiriu, e estou a relê-lo com mais vagar.

2 – É uma entrevista frontal e alargada de Bento XVI que não foge às perguntas formuladas, e onde se faz uma análise da relação do mundo actual e da sua cultura em geral e com a Igreja Católica em especial.

O Papa fala com a cabeça e o coração, sem que um desses dinamismos destrua o outro. A linguagem é simples, acessível a qualquer pessoa, ainda que por debaixo dessa simplicidade haja profunda teologia, filosofia e análise social. Os jornalistas fixaram-se no episódio do preservativo e teceram sobre ele os comentários mais desencontrados, estendendo-o para além do campo referido pelo Papa, a ponto de a Congregação da Doutrina da Fé (aquela que o Papa chefiou durante anos) ter emitido recentemente uma brevíssima nota que situa as palavras do Papa no seu contexto histórico e doutrinário. Essa nota não foi notícia de primeira páginas, nem da segunda nem da terceira.

Quem ler com atenção no referido livro as palavras do Papa (pág.119 da edição portuguesa) percebe imediatamente que elas têm um sentido concreto e não constituem um guarda-chuva que abrigue de todas as trovoadas sexuais que o mundo desencadeou. Em breves palavras, o Papa diz que quem pratica a prostituição e vive desordenadamente as relações sexuais deve ao menos temer a propagação da sida aos outros. Já que não guarda o sexto mandamento, respeite ao menos o 5º mandamento da lei de Deus ( «Não matar nem causar outro dano no corpo ou na alma a si mesmo ou ao próximo»). Usar o preservativo nessas aventuras é um resto de honestidade em relação a outras pessoas. «Pode ser o primeiro passo na estrada que leva a uma sexualidade mais humana».

Não é propriamente um «mal menor», como se disse e escreveu, porque o mal menor nunca procura directamente. O mal menor é algo indesejado que pode surgir ao lado de um bem que se pratica. É o caso de uma cirurgia grave que se faz para recuperar a saúde e que traz consigo medicamentos com efeitos secundários negativos. Estes efeitos são o tal «mal menor» que nunca se desejou mas que se suporta. Não é isso que acontece nas relações sexuais da prostituição. Tudo aí é mau. Pelo risco da sida, o uso do preservativo faz com que a esse mal do desregramento se não acrescente outro mal – a transmissão de uma doença gravíssima ao companheiro de ocasião e ao hipotético filho. Não é um mal menor, é um mal a menos.

Todavia, esse resto de honestidade dos comportamentos aventureiros nem sequer é caminho suficiente para a cura da sida, esclareceu o Papa na entrevista dada no avião que o transportou na viagem pastoral a África, incluindo Angola. Ficar-se pelo uso do preservativo seria ilusório, seria prolongar a escravatura e constituiria caminho para o negócio das indústrias farmacêuticas que estimulam o erotismo. A luta contra a sida requer uma educação muito mais profunda que leve à mudança de comportamentos e de mentalidades.

3 – Desviar o uso do «preservativo» do mundo da prostituição para o interior do casal é descontextualizar a resposta do Papa, transformando-o em «anticonceptivo» comum, o que está nos antípodas da doutrina católica. Uma tal doutrina contribuiria para a banalização da intimidade conjugal, instrumentalizando um ou os dois cônjuges. O casal pode ter razões para não gerar filhos em determinada altura da sua vida e terá de dialogar sobre o caminho a seguir. Nessa escolha desse caminho pode haver «erros e fracassos», como há em tudo na vida, mas esse um erro corrige-se gradualmente sob o apelo luminoso do ideal. O que a Igreja nunca ensinou nem agora ensina é que a relação carnal se possa banalizar, substituindo-o por qualquer mecanismo artificial. Está em causa a «ecologia» da intimidade conjugal.

Percebe-se que há aqui uma exigência educativa, mas em toda a vida do casal ela existe, seja na economia diária ou num grande investimento, seja na aceitação de mais um filho ou na sua educação em escolas mais exigentes, seja na compra da casa ou do automóvel, seja na emigração ou na aceitação de um cargo público por parte do marido ou da esposa. Em qualquer desses casos é indispensável que os dois dialoguem, que ambos assumam a decisão final, não sendo correcto que um imponha ao outro o seu querer, «submetendo-o» aos seus sonhos ou fantasias.

Qualquer pessoa com alguma sensibilidade humana percebe o alcance desta linguagem, e basta transportá-la para a intimidade do casal para logo perceber a beleza do amor conjugal como vem revelado na Bíblia, como a Igreja a ensina, e como o sente uma pessoa senhora de si.

 

*Bispo de Vila Real

 

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