Terça-feira, 19 de Outubro de 2021

O rosto da liberdade na revolução nos países árabes?

1 - A agitação que varre os países árabes e muçulmanos é cuidadosamente acompanhada por economistas e governantes ocidentais em virtude dos interesses económicos e políticos postos em causa, mas ela merece ser analisada também pelos aspectos humanos e espirituais, mais vastos e profundos. Sobre estes farei algumas considerações, porque eles podem ajudar-nos a compreender a nossa vida de povos ocidentais.

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2 – É sabido que nos povos islamizados a religião e a política andam unidas a ponto de a suprema autoridade religiosa interferir directamente na orientação política do país, sendo a vida dos cidadãos, homens e mulheres, controlada pelo poder religioso. O próprio solo dos países islamizados é «sagrado» não podendo aí construir-se nenhum templo ou igreja de outra religião, pois isso constituiria uma profanação da terra.

É o que se chama o integrismo absoluto da vida política que se reflecte depois em todas as manifestações sociais, políticas e culturais dos cidadãos, sendo inadmissível formular qualquer crítica a Maomé e aos seus preceitos, pois, embora ele não seja proclamado divino pelos seus sequazes, é o profeta definitivo e indiscutível, e qualquer crítica é considerada uma blasfémia punida com pena de morte. Por isso se registam frequentes assassinatos de cristãos na Arábia Saudita, no Iémen, no Iraque, no Paquistão e mesmo na Turquia, apesar de o país se dizer um país laico.

3 – Essa mesma tentação integrista ameaçou a Índia quando se discutiu a sua Constituição como uma democracia, desejando alguns deputados que o país fosse declarado um Estado teocrático com o Hinduísmo como religião do Estado. Felizmente a proposta foi rejeitada, ainda que em alguns Estados da federação se mantenha o espírito teocrático hindu com o consequente assassinato de cristãos e de muçulmanos.

Era esse, de resto, o estilo dos povos mais antigos, tendo cada um deles o «seu» deus, o deus nacional ou da tribo, zeloso do «seu» território e do «seu» povo. Muitos textos do Antigo Testamento lembram claramente a existência dessa mentalidade em povos vizinhos ao falar do «Deus de Israel e dos «deuses» dos povos vizinhos, comparando-os entre si, fazendo lembrar a actual luta dos clubes desportivos. Na Idade Média, as nações cristãs tiveram um período semelhante ao adoptar o cristianismo como sua religião oficial, impondo os seus preceitos e sinais em toda a vida nacional – nos testamentos, nos registos e celebrações oficiais –, e marginalizando quem não praticasse essa religião.

Com a separação das Igrejas dos Estados na Europa operou-se a «dessacralização» do poder político e do território, e a «despolitização» do poder religioso, dando a Deus o que é de Deus e a César que é de César, isto é, Deus tem carácter absoluto e o poder político não tem, mas nem por isso o poder religioso pode manipular a seu jeito o poder político. No regime de separação, a religião deixa de ser património do Estado e passa a ser património livre dos cidadãos, das famílias e da sociedade civil. O Estado deve respeitar essas opções dos cidadãos, sem as fazer suas, para que todos caibam no território comum.

Este fenómeno da dessacralização, que também se pode chamar laicidade e secularização, é fundamental para a vida dos Estados modernos com populações cada vez mais pluralistas. Esclareça-se que esta laicidade ou secularização positivas é diferente de «laicismo» ou «secularismo», termos que designam atitudes ideológicas dos Estados que pretendem irradiar a religião da sociedade civil, atitudes praticamente coincidentes com o ateísmo ou agnosticismo militantes que, de facto, estão presentes em várias nações europeias. O laicismo ou secularismo são corrupções da saudável laicidade, um pouco como o alcoolismo é a degradação do uso legítimo do vinho.

4 – Pode ser aquela legítima dessacralização que está em curso nas nações árabes islamizadas mais próximas da Europa, levada a cabo por centenas de jovens mais cultos que se aperceberam depressa dos novos esquemas da vida política e religiosa dos cidadãos, retirando o carácter divino e hereditário aos detentores do poder político e deixando aos homens e mulheres a liberdade de usarem ou não a barba, os véus e outros sinais religiosos.

Se assim for, é um grande passo para a paz e a civilização. Já há mais de sessenta anos que o filósofo cristão Jacques Maritain ensinava que os povos orientais, esmagados pelo sistema de castas e pelo Islão, só poderiam conquistar a paz social e a liberdade religiosa e política pela laicização das estruturas políticas. Na altura, estas palavras pareciam um sonho e uma blasfémia, mas elas poderão estar a realizar-se gradualmente.

5 – No Ocidente, a legítima dessacralização do poder político traz consigo uma ameaça – o abandono dos valores éticos fundamentais, confundindo-os com os valores religiosos. Entre esses valores éticos fundamentais está a vida humana como o pilar indiscutível da sociedade. No dia em que esse pilar for menosprezado e postergado em favor de outros valores e interesses, a saudável dessacralização política transformar-se-á em desumanização. Esse perigo já é uma realidade no Ocidente, e talvez seja essa uma das causas da resistência à evolução do mundo oriental.

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