Terça-feira, 6 de Dezembro de 2022
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O silêncio inquietante

Durante o mês de Agosto alguns jornais referiram-se a uma possível crise de fé por que terá passado durante anos a Madre Teresa de Calcutá, totalmente empenhada na dedicação aos mais pobres dos pobres, e já beatificada por João Paulo II. O mundo abriu os olhos de espanto interrogando-se como é que um santo pode […]

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Durante o mês de Agosto alguns jornais referiram-se a uma possível crise de fé por que terá passado durante anos a Madre Teresa de Calcutá, totalmente empenhada na dedicação aos mais pobres dos pobres, e já beatificada por João Paulo II.

O mundo abriu os olhos de espanto interrogando-se como é que um santo pode ter dúvidas de fé. Agora, na sua viagem pastoral à Áustria, Bento XVI falou abertamente do problema daquela religiosa e referiu a pergunta que ele mesmo fez a si próprio quando viu o horror do campo de concentração nazi onde foram queimados milhões de judeus. Também eu senti há anos náusea semelhante ao visitar o que fora o campo nazi de Dachau, na Alemanha, onde me parecia sentir ainda o cheiro a carne humana. Ao desconforto humano e civilizacional (como é possível descer-se tão baixo?), acresce subtil a terrível pergunta teológica: «e Deus viu fazer isto e deixou correr»!

É um tema delicado, um daqueles temas que nos conduzem ao coração da fé católica, e que muitos cristãos fariam bem em colocar-se porque os levaria a uma fé mais adulta e os aproximaria de muitos descrentes que se debatem com esse drama sem o saberem ultrapassar.

No fundo, é o desconforto do silêncio de Deus durante a história de cada pessoa e do mundo. A questão pode colocar-se, portanto, no plano pessoal da experiência orante e pode colocar-se no plano mais abrangente da reflexão sobre a Providência de Deus na história do mundo. Neste lugar só cabe uma breve chamada de atenção para os dois problemas, rigorosamente interligados.

No plano pessoal, todo aquele que fez alguma experiência séria de oração sabe que ela nem sempre é acompanhada do sentimento de plenitude, um exercício de diálogo nem sempre acompanhado do sentimento de alegria sensível. A oração é sempre um acto de fé, um acto de quem tem a certeza de que fala para uma pessoa viva, a certeza de ser ouvido mas dentro de um quadro que nos escapa, parecendo por vezes que Deus está «distante», «alheio» aos nossos desabafos, quase desinteressado, ou seja, a oração é sempre carinhosamente ouvida mas o despacho não é datado, Deus não se deixa controlar por nós, e a História não é algo escrito pelas nossas decisões.

Quem conhece o texto bíblico sabe de cor as passagens que suportam essa afirmação: «o Pai sabe o que vos convém», «nem um só cabelo cai sem o Pai saber», «Deus nunca dará um escorpião ao filho ainda que o seu pedido lhe pareça um ovo». É nesta grandeza do amor e saber de Deus, Senhor de toda a estrada futura, que os nossos desabafos se cruzam constantemente com o seu olhar. E daí o subtil sentimento humano de dúvida acerca do meu comportamento em relação a Deus e de Deus comigo: ouvirá Ele o que eu digo, andarei eu pelo bom caminho, será mesmo isto o que Ele quer de mim, não andarei enganado ao empenhar-me numa obra que tarda em florir? Todos os santos fundadores de obras sociais, missionárias, apostólicas, e mesmo muitos bons pais de família, passaram por este drama da aridez, um verdadeiro drama do deserto. Bem pode ter sido esta a pergunta da madre Teresa: quando começarão a diminuir os pobres, a haver sinais de que esta minha obra é sensata, que corresponde ao desejo de Deus? Desta terrível pergunta dos santos livra-os Deus pela autoridade visível da Igreja e o confessor. Também aqui, sobretudo aqui, «a fé vem do ouvido», da capacidade de ouvir e de obedecer.

Jesus Cristo, também verdadeiro homem, não foi excepção a este drama, e tanto no Horto como no Calvário, a pergunta surgiu: «Pai porque me abandonaste?», «Isto não será uma ilusão»? E Pedro foi avisado: «quando eras novo, ias por onde querias; quando fores velho, outro te levará para onde não queres».

E entramos no segundo problema que há pouco referi, o problema de saber se é possível demonstrar a acção da Providência de Deus no evolução do mundo, isto é, será possível encontrar no interior da história do mundo uma lógica interna, de modo que os bons sejam premiados e os maus condenados? A virtude é garantia de triunfo terreno, e o vício caminho de humilhação? Algumas correntes de teologia protestante enveredaram por aí, e entenderam um certo êxito capitalista como o prémio da fé. Não é esse o sentido da fé católica, nem aquilo que ressalta da Bíblia. Por estranho que pareça, a História não revela essa lógica interna. Por isso, os teólogos como o cardeal Daniélou falam do «mistério da História». Não há uma lógica interna de prémio e de castigo, e têm razão os descrentes como Sartre e Camus ao proclamarem que o mundo não é escrito por um Deus notário. Efectivamente, a Providência de Deus é algo em que o crente tem de acreditar, porque Deus, pela natureza das coisas, só pode ser bom e justo e atento, mas a Providência não se demonstra na escritura terrena, pelas mesmas razões de que acima referi ao falar da relação pessoal do orante. Deus não está prisioneiro da História como os deuses das religiões naturais e das tribos pagãs, tem toda a eternidade à sua frente para Ele, para nós e para os outros, e é nessa amplidão de horizontes que a escrita tem de ter lógica. Deste modo, a observação geral da história humana pode ser, como a observação da história pessoal, geradora de dúvidas para o crente: por que se mantém este silêncio de Deus?

O silêncio de Deus, eis a raiz profunda da inquietação das almas piedosas e dos grandes pensadores. Na sua simplicidade cheia de sabedoria, o povo diz que Deus paga bem mas não paga todos os fins-de-semana.

 

* Bispo de Vila Real

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