1 – Não é propriamente o Orçamento do Estado, mas uma questão mais profunda e abrangente, ainda que não ligada diretamente a contas e finanças públicas. Quero referir-me aos 50 anos do Concílio do Vaticano II, aberto aos 11 de outubro de 1962 e que o Papa Bento XVI quer assinalar convenientemente. Para isso irá realizar-se, de 7 a 28 do próximo mês de outubro, a assembleia ordinária do Sínodo dos Bispos sobre “A nova Evangelização para a transmissão da fé” e desde o dia 11 desse mês até à festa de Cristo Rei de 2013 celebrar-se-á o “Ano da Fé”. Tudo isto para evocar e prolongar o II Concílio do Vaticano. A esse tema voltarei algumas vezes.
2 – Vinha de longe o desejo de realizar um Concílio ecuménico, mas nenhum dos grandes Papas do séc. XX ousou convocá-lo. Recordo-me perfeitamente de, durante o meu curso de teologia concluído em 1960, alguns professores nos falarem da hipótese da realização de um Concílio.
Em 25 de janeiro de 1959 o Papa João XXIII, que havia sido eleito no ano anterior, anunciou a sua decisão de convocar um Concílio e mandou consultar os bispos de todo o mundo sobre a temática. O anúncio surpreendeu o mundo e despertou enorme curiosidade aos alunos, desejosos de ver o que seria uma assembleia de bispos de todo o mundo e que tipo de reflexão iriam fazer. Na opinião de um dos nossos professores, esse Concílio teria como objetivo clarificar a posição da Igreja acerca dos graves desvios culturais infiltrados na sociedade moderna. Foi efetivamente isso que veio a acontecer, mas sem o ar condenatório que esse mestre de direito previa, antes como diálogo da Igreja com a sociedade do séc. XX.
A seu tempo, nomearam-se as Comissões preparatórias e o Concílio abriria efetivamente aos 11.10.1962. João XXIII faleceria no ano seguinte e coube ao Papa Paulo VI levar por diante a tarefa hercúlea dos trabalhos conciliares que seriam concluídos no dia 8 de Dezembro de 1965.
3 – O mundo de então, que se prolonga nos nossos dias, era atravessado pela tendência de organizar a vida das pessoas, das famílias e da sociedade à margem de Deus e, concretamente, de Jesus Cristo e da sua Igreja, tornando Jesus supérfluo. É o que se chama secularismo ou laicismo: o homem a querer bastar-se a si mesmo, organizando a sua vida sem recorrer a Deus e construindo uma civilização à sua medida. Vaclav Havel, recentemente falecido, chamava-lhe «a primeira civilização ateia da história», afirmação que, não sendo totalmente aceite, é esclarecedora. É a primeira civilização a escolher conscientemente o alheamento de Deus, a viver orgulhosamente sós, com a perda da memória e herança cristã na Europa.
A esse drama se referiu Bento XVI ao dizer aos membros da Cúria romana que «o cerne da crise da Europa é a crise de fé. Se não encontrarmos uma resposta para esta crise, se a fé não ganhar de novo vitalidade, permanecerão ineficazes todas as outras soluções».
Essa atitude foi no século passado assumida filosoficamente por uns com o ar triunfal de quem obteve a maior conquista da humanidade (ser plenamente livre, não depender de ninguém); por outros, como uma fatalidade resignada, uma vez que, não sendo possível chegar ao conhecimento vivo de Deus (os agnósticos), temos de nos resignar a contar somente connosco. Para esses dois grupos, os crentes e sobretudo os católicos apareciam-lhes, ora como uns coitados ainda dependentes de fantasias, ora como uns felizardos por terem acesso à luz da fé. De qualquer modo, exigia-se–lhes a ambos que não interferissem na vida social com a sua fé, pois a vida terrena teria de ser sempre e só tecida com valores terrenos.
4 – A resposta e eixo, do Concílio é constituído por dois documentos que se podem encontrar com facilidade numa livraria católica: a constituição sobre a Igreja em si mesma (“Lumen gentium”, Luz do mundo) que nos informa da origem da Igreja, do seu mistério íntimo e da sua estrutura; e a constituição sobre a Igreja no mundo contemporâneo (“Gaudium et Spes”, alegrias e esperanças), que esclarece qual é a relação da Igreja com os dramas e aspirações do homem, a família, a cultura, a economia, a política. Para prolongar e explicitar os vários aspetos de cada uma dessas constituições basilares o Concílio publicou documentos em forma de decretos, declarações e até de constituições.
Desde o Concílio na segunda metade do séc. XX até hoje, as coisas mudaram um pouco. De um modo geral, assiste-se ao regresso do fenómeno religioso e pululam por toda a busca de espiritualidades dentro e fora da Igreja com grupos místicos, expressões religiosas, seitas e movimentos, bruxas e bruxedos, superstições e adivinhos, homens e mulheres de virtude, lançamentos de cartas e leituras de signos.
Ao lado desse dilúvio de múltiplas espiritualidades, mantém–se o núcleo duro dos que prescindem de Deus na sua conduta pessoal e na organização da vida familiar e política, frequentemente agrupados em grémios secretos e partidos.
5 – Neste início do séc. XXI, a Igreja tem uma tripla missão: perante a multiplicidade de religiosidades e misticismos, afirmar que só Jesus Cristo é Salvador e que todas as outras religiosidades são cadeias tecidas com fios de seda, mas essa denúncia e proposta têm de ser feitas por amor ao homem e sem recorrer a anátemas; perante os laicos militantes, reconhecer que as realidades terrestres têm regras próprias que lhes vêm da sua estrutura natural de criaturas e se podem conhecer pela investigação científica sem precisar da Bíblia, mas acrescentando que tais conhecimentos são insuficientes para construir uma civilização digna do homem e para dar um sentido à vida; aos seus membros, a Igreja tem de os ajudar a perseverar na sua fé e a manter um diálogo vivo com o mundo.
De modo sintético, o problema do homem contemporâneo é tentar viver de modo civilizado sem Deus e sem a Igreja de Cristo; e o desafio posto à Igreja é ser autêntica Igreja de Cristo para ajudar o homem a construir o seu futuro e a civilização do amor. Paradoxalmente, a Igreja, que não vive para si mesma, tem de ser cada vez mais autêntica para poder ajudar o mundo que gostaria que a Igreja se adaptasse a ele para ser sua companheira e não quisesse ser sal.
É o eterno problema do doente que se diz de boa saúde e dispensar o médico, e o médico que conhece o doente e a sua ilusão mas que tem de dialogar com ele até o convencer, sem o condenar.
*Bispo Emérito de Vila Real



