Segunda-feira, 14 de Junho de 2021
Tiago Pereira Fernandes
Advogado. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

OE 2021: A caixa de Pandora

Segundo a mitologia Grega, Pandora foi enviada por Zeus à Terra como um presente para os homens. Nesta sua viagem à Terra, Pandora levava consigo uma bela caixa e recebeu dos sapientíssimos deuses a advertência de jamais abri-la.

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Pandora desconhecia, mas dentro dessa caixa havia todos os males que podemos imaginar, como guerras, pestes e fome (até então, segundo o mito, o Mundo dos Homens era regido pela paz). Convocamos no regresso a este espaço a mitologia grega por entendermos que o comportamento do Bloco de Esquerda a votar, na generalidade, contra o OE 2021 tem muito do comportamento de Pandora. 

Senão vejamos, o acordo celebrado em 2015 entre o PS (74 deputados), BE (19 deputados) e PCP através da “sua” CDU (17 deputados), permitiu não só por fim à governação do PSD como encetar uma trajectória de melhoria das condições de vida de todos os portugueses sem precedentes no Portugal democrático, acompanhada do cumprimento de todas as metas económicas e financeiras que culminaram inclusivamente num superavit. Este acordo permitiu acima de tudo, quebrar o dogma de que apenas a Direita (o PSD) podia em Portugal governar sem maioria parlamentar mas com estabilidade governativa. 

E reside precisamente aqui o pecado capital do BE relativamente ao OE 2021: sem motivo palpável, não conseguiu ceder à tentação de voltar à oposição e, ainda que apenas na generalidade, optou por votar contra o OE 2021. Ao que parece, o BE recorda com saudosismo o dia 23.03.2011, dia em que, aliando-se ao PSD de Pedro Passos Coelho, chumbou o PEC IV e conduziu o país não só a eleições legislativas, mas a quatro anos de austeridade auto-infligida, onde todos os que por cá ficamos, empobrecemos (nunca em democracia, em simultâneo, se cortaram salários, subsídios e se aumentaram exponencialmente impostos). Desse dia, o BE retirou uma estrondosa derrota eleitoral, passando de 557.091 votos e 16 deputados para, 288.076 votos e 8 deputados, resultando na saída de Francisco Louçã da liderança do Partido. 

Sendo fácil analisar a história depois de a mesma se desenrolar, diríamos que o alcançar do BE de 19 deputados em 2015 resultou do facto de, durante todo o processo eleitoral, a sua líder assumir com insistência que “Não será pelo BE que a maioria de Direita formará Governo”. Os portugueses, sempre sábios e ciosos de conferirem a apenas um partido a maioria absoluta, viram no BE o parceiro preferencial, à esquerda, para que a mesma se pudesse constituir, ainda que de incidência parlamentar. 

Volvidos apenas cinco anos, tal como Pandora, a curiosidade falou mais alto e, em contexto de pandemia (com todos os problemas deste facto decorrentes), o BE decidiu abrir a caixa: votando contra, na generalidade, o OE 2021 e quebrando assim o entendimento da esquerda que havia demorado 41 anos a conseguir. 

Resta-nos esperar que, apercebendo-se do erro e ao contrário de Pandora, votando a favor na votação final deste OE, voltando a tentar fechar a caixa, não seja tarde demais…. ■ 

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