Sábado, 31 de Julho de 2021
Vitor Pimentel
Empresário. Colunista de A Voz de Trás-os-Montes

Os 3Fs

O Estado Novo ficou conhecido pelo lema dos 3 Fs, “Fado, Futebol e Fátima”

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Estes três eixos caracterizavam, de forma caricaturada, uma ditadura, uma sociedade e um país fechados sobre si mesmos, escondidos do mundo e cujo objetivo primário era a manutenção do poder.

Volvidos quase 50 anos desde a Revolução dos Cravos, parece que o país desesperado por boas notícias, no meio de uma crise sanitária, económica e social, encontrou um novo mantra de 3 Fs para o verão de 2020, “Futebol, Faz-de-conta e Fantochada”.

Não importa os riscos que o Covid-19 acarreta, não importa se estamos a aceitar eventos que outros países rejeitaram, nem importa se a região de Lisboa está em pleno surto comunitário ativo.

O importante para o Presidente da República (em pré-campanha) e para o Governo (em remodelação) é que os portugueses não reclamem das suas circunstâncias e desfrutem de entretenimento de qualidade.

Numa cerimónia que se situou entre a hipérbole e o ridículo, Marcelo afirmou que uma final da Champions League é um caso “único e irrepetível”, ignorando as outras dois finais anteriores, em 1967 e 2014.

Costa, reforçando o domínio do absurdo, referiu que a final é um “prémio” para os profissionais de saúde. Qual é o privilégio para estes profissionais que no país se jogue uma fase final dum torneio de futebol entre equipas estrangeiras, que mais nenhum país quis acolher?

Seria cómico, se não fosse trágico, notar que somos dos raros países em que as ligas secundárias foram canceladas, em que milhares de jogadores portugueses se viram privados de exercer a sua profissão e em que centenas de clubes de menor dimensão correm o risco de não sobreviver.

No meio de tanta incoerência e contradição, continua o espetáculo diário de contorcionismo político da Ministra da Saúde e da Diretora-geral da Saúde, que tentam a todo o custo fazer de conta que o apregoado “país-milagre” é afinal, atualmente, o 17º pior do mundo no que toca a mortes por milhão de habitantes provocadas pela pandemia. 

Perante tantos maus exemplos, vindos de quem nos governa, o que seria de esperar senão os ajuntamentos irresponsáveis de Lagos e das Docas? Se dá para comemorações do 1º de Maio, para manifestações anárquicas contra qualquer coisa, para finais de torneios de futebol e para festas partidárias (vem aí mais uma), tem que dar para tudo. ■

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