Os Recasados

Algumas Dioceses de Portugal já estão a dar passos firmes para uma integração plena dos recasados na vida da Igreja, percorrendo-se um caminho com algumas etapas e critérios.

Não poderia ser de outro modo. Como disse o Papa Francisco, ninguém está condenado para sempre e não se compreenderia que a Igreja recusasse a comunhão a pessoas que falharam, se é que falharam, num primeiro casamento, que é irrecuperável. Não poderíamos continuar a deixar as pessoas presas e marcadas pelo seu passado, mas abrir caminhos para um recomeço e possibilitar a inclusão e não persistir na condenação ou na discriminação. «A Igreja não está no mundo para condenar, mas para possibilitar o encontro com a misericórdia de Deus», como assertivamente disse o Papa Francisco.

Há uma fação da Igreja que está claramente contra, tem feito oposição ao Papa, e até considera que a solução roça a heresia. Não deixo de ficar espantado como é que a Igreja se está a deixar envencilhar em discussões doutrinais e normativas, à maneira dos embates entre Jesus e os doutores da lei e fariseus. Se há algo que Jesus combateu determinadamente foi o legalismo e o formalismo frio de só se ver a vida pelo cumprimento cego e fiel de uma lei ou de uma doutrina. A vida transborda sempre para lá das regras e dos códigos legislativos. A vida apresenta sempre novos desafios, enquadramentos e problemas que não se podem ver apenas pela mira de um dogma ou de uma norma. E mal da sorte se nós trocámos o legalismo, o formalismo e o dogmatismo dos fariseus e escribas por um dogmatismo e legalismo cristão, que Jesus tanto recusou. As regras, as leis e as doutrinas são indicações e orientações, que devem estar sempre abertas a outras considerações, porque a vida é complexa e original. 

Esta abertura não seja, contudo, vista como cedência ao facilitismo e à banalização do casamento, que a sociedade atual promove. Há que repensar a atual e nefasta cultura do provisório e do descarte, que coisifica o outro e despreza a fidelidade e o compromisso, o que é uma fonte perversa de sofrimento, e a imaturidade com que muitas pessoas se apresentam para constituir família, quando não o deveriam fazer. O casamento não é uma simples festa. É um contrato, é um compromisso para ser dignamente vivido e escrupulosamente respeitado.

ARTIGOS do mesmo autor

Os Resultados do Pisa

O Preceito Dominical

A Música Litúrgica

A Descomunicação Social

NOTÍCIAS QUE PODEM SER DO SEU INTERESSE

ARTIGOS DE OPINIÃO + LIDOS

Notícias Mais lidas