Num canto, debaixo de um cipreste, estava num dia molhado e frio de novembro uma jovem e esbelta mulher viúva, carpida em lágrimas secas e pesadas porque todos os dias rezava junto à campa do seu homem, recentemente falecido… ainda lhe sentia o rasto, os odores das velhas carícias, ainda o imaginava ali presente e, por isso não deixava de o lembrar… Entre dentes ouviam-se gemidos e palavras dificilmente decifráveis: “Ai Jaquim que foste tão cedo, ai Jaquim que me fazes tanta falta, ai Jaquim que as noites são agora tão longas e frias… ai Jaquim, sem ti o que será agora de mim…”
À saída, cruzei-me com uma outra viúva. Dentro dos olhos estavam prontas lágrimas a quererem sair para mostrarem o desassossego de uma alma intranquila, carregada de expressão incontrolada de pesar…
Duas viúvas no cemitério davam solenidade a um espaço de memórias e de dor. Olhavam uma para a outra trocando nos olhares a solidariedade da perda comum. Uma das infelizes ao sair do cemitério benzeu-se quase dos pés à cabeça. Três vezes o fez. Assim, contou ela, porque já a sua mãe o fazia em memória dos seus mortos porque assim nenhum espírito mau acompanhava os visitantes…
Depois de as viúvas saírem do cemitério, entrou mais morta do que viva uma anciã, pintada de negritude e quase sem carne no rosto…
Estendeu-se na campa onde o seu homem estava sepultado há mais de 50 anos. Poisou a cabeça no retângulo mal-amanhado. O odor do lugar invadiu-a agarrando-se ao chão numa tentativa de posse. Aos poucos sentiu um perfume estranho que entrou dentro dela. Levantou os olhos para o céu e pensou que esses odores reconfortantes vinham acima das nuvens, pensando a velha que era um sinal supremo de que em breve ia ver o seu homem que não suportava mais a ausência da sua Henriqueta.
Fora do cemitério um velho jerico aguardava impaciente a dona para a conduzir até casa e, submisso, ia soltando zurros em forma de chamamento…
Vou tantas vezes ao cemitério sem que ninguém me veja. Sei que apenas eles, os residentes efetivos, silenciados no sono eterno sentem e ouvem o sopro de cada visitante.
Quando vou ao cemitério, vejo os rostos na minha imaginação para além das fotos coladas nas pedras jazentes das lápides … e vem-me à memória, cenas, retalhos, palavras e conversas de alguns que ali estão mas que não podem mais dizer o que ficou por dizer. O tempo que ali se está é intemporal, não conta, porque para além de mim mais ninguém tem relógio. Isso proporciona uma paz única, um conforto porque se está no tempo e não se sente ele passar, é como se ali estivéssemos hibernados na loucura dócil do mesmo tempo…
Ao passar pelas estreitas ruas das campas vou olhando para os rostos de um lado e de outro, visionando a evasão sentida do tempo que já passou… passo meditativo e respeitoso, contrito na lágrima da saudade que não sai porque a tristeza misteriosa e mórbida não deixa… e ali deitado no olhar das campas lembro episódios de outros tempos em que os corações gemiam na perda de um familiar ou amigo…
É sabido que nos cemitérios estão guardadas grandes histórias de amor que se perpetuam na memória através das artes, e sobretudo na música que foi sempre obra das grandes criações humanas… cada ruela tem histórias, romances que se vão conhecendo à medida que no calor da saudade os corações expressam aquilo que não podem calar. Há regras sociais que não podem silenciar-se porque houve e há paixões que desafiam todas as regras sociais…
Não se vai a um cemitério sem lembrar a palavra saudade… saudade é ter lastro, ter história, ter passado. Recusar o esquecimento e lembrar no convívio dos vivos os rostos, as palavras daqueles que nos ajudaram a construir aquilo que hoje somos. Ali mora a paz única, a concórdia, a resignação.





