Domingo, 26 de Setembro de 2021
Victor Pereira
Pároco. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

Pensar a Igreja para lá da Pandemia

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Não acredito em hecatombes, não acredito num abandono massivo da Igreja ou da sua liturgia, mas também será imprudente pensar que a pandemia não deixará marcas. É preciso começar a refletir seriamente que Igreja queremos ser depois da virulência da pandemia. As instituições que perduram são aquelas que profeticamente sabem ler os tempos e se preparam para os novos desafios, mudando esquemas, posturas e estruturas.

A palavra de ordem está dada há muito tempo pelo Papa Francisco: ser uma Igreja em saída. Já não tem futuro uma Igreja refastelada no modelo e na organização da cristandade, mas tem de nascer uma Igreja mais evangelizadora e missionária, que saia ao encontro de todos para estar com todos, recativando pela sua presença e ação humilde, servidora, compassiva e alegre. Para isso, a Igreja precisa de passar por um profundo processo de conversão teológica, pastoral, estrutural e espiritual, como defende Julian Diaz Lucio, num artigo do Religion Digital.

De uma Igreja que parecia dona da verdade e mestra da moral, tem de nascer uma Igreja que está mais para aprender e compartilhar do que para ensinar e dogmatizar, uma Igreja que privilegia a empatia e o diálogo, em vez dos decretos e as leis. Não pode continuar a persistir uma organização e um governo piramidal da Igreja, mas é preciso concretizar a sua verdadeira identidade como Povo de Deus, promovendo-se e aprofundando-se a sinodalidade e abatendo-se o clericalismo, dando-se mais corresponsabilidade aos leigos na gestão e atividade da Igreja. A nível teológico, talvez seja preciso rever os conceitos que temos de Deus, da salvação, de Jesus Cristo, dos sacramentos. É cada vez mais difícil sustentar a doutrina do pecado original ou do purgatório, entre tantas outras doutrinas que poderão estar obsoletas. Na paisagem espiritual, já não faz sentido um cristianismo assente no ritualismo, no sacramentalismo, nas tradições, nas regras e obrigações, nos deveres e mandamentos, nas proibições e permissões, que levaram a um formalismo e legalismo vazios, mas é preciso vincar que o centro do cristianismo é fazer a experiência real e verdadeira de Jesus Cristo, seguir e viver o seu Evangelho, acolher e partilhar o seu Reino, em se deixar guiar pelo Espírito Santo, porque o cristão do futuro ou será místico ou não será cristão.

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