Pobreza envergonhada

“Peço muita desculpa, sinto-me mal ao ligar-lhe, mas…”. Estava em Barcelona, um domingo de manhã. A voz de mulher, do outro lado do telemóvel, calou- -se e foi substituída por um choro contido. A mulher era uma amiga de longa data, que já não ouvia há muito tempo. “Desculpe, ao fim deste tempo, lembrei-me de si, talvez me possa ajudar…”. Como não conseguia dizer mais, eu insistia, disse que era seu amigo, que podia contar, ajudaria no que me fosse possível.

Achei que seria algum problema de saúde grave. Esta amiga, de origem familiar conhecida no público comum, sempre sorridente e bem-disposta, engrossa a fileira de classe média, que todos achamos remediada e com os seus problemas controlados. Por isso, achei que só podia ser assunto de saúde.

“Abri o frigorífico e não tenho leite para dar aos meus dois filhos!”

Calei-me. Fiquei atónito. Em voz trémula, a mulher continuou: “Não posso dizer isto a nenhum familiar ou amigo chegado; os meus filhos não podem saber das minhas dificuldades e também tenho vergonha que a minha família saiba desta aflição! Por isso me lembrei de si, desculpe!”

Entendi perfeitamente as causas da situação desta amiga distante. Tinha vergonha da

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