Sábado, 16 de Outubro de 2021

Portugal precisa de “um presidente que tenha uma outra visão do país e outros valores”

Depois de há cinco anos ter assumido politicamente sozinho o desafio de se apresentar aos portugueses como uma alternativa à Presidência da República, Manuel Alegre surge agora sob as bandeiras do Partido Socialista e do Bloco de Esquerda. Se nas presidenciais de 2006 conseguiu ficar a menos de 30 mil votos da segunda volta, agora, numa “caminhada difícil”, o candidato mostra-se confiante e empenhado na recuperação de Portugal e considera que a mudança de rosto e de visão “é mais necessária do que nunca”. No último fim-de-semana, Manuel Alegre esteve em Vila Real, em campanha eleitoral, abrindo assim o esperado rol de visitas ao distrito dos candidatos às Eleições Presidenciais de 23 de Janeiro de 2011.

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Quais as diferenças que encontra nestes quatro anos passados desde que se candidatou pela primeira vez? Qual é o balanço que faz do país?

“O nosso país atravessa, neste momento, uma crise muito grave que resulta não só de problemas estruturais nossos, que já são históricos, mas também da crise mundial que a Europa atravessa. E ainda do papel que está a assumir a Alemanha, o eixo Berlim-Paris, que é mais Berlim que Paris, com a senhora Merkel, que, para preservar o Euro na luta contra o dólar, está a desconstruir a União Europeia e a pôr uma espécie de garrote financeiro à volta dos países periféricos, como Portugal, Espanha, a Irlanda e a Grécia, agora com a ameaça aos credores que emprestarem dinheiro aos países em dificuldade. Isto cria uma situação nova na Europa, onde as decisões deveriam ser colegiais e estão a ser tomadas a dois, quando não só a um. Isto é rasgar os tratados e a colocar países como o nosso numa situação particularmente difícil, porque esta subida dos juros da dívida soberana já não resulta da situação económica, já foi feita depois da aprovação do orçamento, que tinha como objectivo acalmar os mercados.

Esta ofensiva especulativa, artificial, tem um conteúdo político e levanta a necessidade de discutir a Europa, porque, neste momento, há uma subversão do Tratado de Lisboa. É preciso saber em que Europa estamos e Portugal tem que fazer ouvir a sua voz. Temos que pôr o problema da viabilização dos países periféricos já que há, na Europa, uma deslocação do poder para o centro contra a periferia.

Em Portugal estamos numa situação muito difícil. Este orçamento tem medidas muito duras. Creio, aliás, que este regime de austeridade, que está a ser imposto a todos os países nesta situação, não resolve nada. A austeridade traz contigo a recessão, a recessão agrava as desigualdades e o desemprego e impede o crescimento económico.

Até ao momento, o nosso país tinha tido um bom crescimento das exportações, mas isto vem ser um garrote que é mau e que pesa sobretudo nos funcionários públicos, pensionistas e trabalhadores por conta de outrem, mas também nos trabalhadores do sector privado.

Temos que encontrar uma maneira de sair desta situação. Para isso temos que aprender a viver de outra maneira. Temos que nos reencontrar com o mar e com a terra. Os campos têm que voltar a ser cultivados, temos que voltar a produzir.

Temos que aprender com os sectores que souberem resistir à crise, como por exemplo o sector do calçado. Temos que aproveitar os nossos recursos endógenos.

Há muita coisa que tenho descoberto nesta volta que estou a dar no país. Tenho conhecido muitas pequenas empresas com grande capacidade exportadora, com incorporação tecnológica e inovação social. É nisso que temos que apostar: na competitividade da economia”.

 

Tem transmitido que o papel desempenhado pelo actual Presidente da República (PR) não tem sido o melhor. Haveria mais a fazer relativamente a uma postura internacional?

“Sim. O PR coloca-se numa posição muito conformista relativamente aos mercados. Disse ele, numa entrevista ao Expresso, que não adianta protestar porque eles (FMI e mercados internacionais) não nos ligam nada. Se o PR fala assim, cada vez nos ligarão menos.

Nesta situação, em que a subida das taxas da dívida soberana resultam de uma iniciativa da senhora Merkel, passamos a ter uma questão política, portanto a voz do PR deveria fazer-se ouvir em defesa do interesse nacional. Não temos que estar na Europa numa posição submissa ou com complexos de inferioridade. A Europa é um projecto de Estados iguais e soberanos.

Qual a sua maior motivação pessoal para esta candidatura?

“Eu acho que a eleição presidencial de 23 de Janeiro é decisiva. Não se trata apenas da escolha entre duas personalidades com uma visão diferente do mundo e do país, mas sim da escolha de um modelo político, com futuro da sociedade, com a forma e o conteúdo da nossa democracia.

A direita europeia, e a portuguesa também, está a aproveitar esta crise para pôr em causa serviços públicos e direitos sociais que custaram o sacrifício de muitas gerações.

Direitos sociais que estão consagrados na nossa Constituição e fazem parte da nossa democracia, tal como ela foi construída depois do 25 de Abril. É isso que está em causa.

Foi apresentado um projecto de revisão constitucional que, na verdade, é um projecto estratégico contra o Estado Social, tal como ele está na Constituição da República. E sobre isso o PR ainda não se pronunciou.

No futuro, se houver uma nova maioria, é preciso saber quem é que vai estar na Presidência da República e o que vai fazer. Eu digo o que vou fazer: lutarei contra qualquer Governo, seja ele qual for, que tente pôr em causa o Serviço Nacional de Saúde, a escola pública, a Segurança Social, o conceito de justa causa e os direitos fundamentais que estão na Constituição da República. Usarei todos os poderes presidências para impedir que isso aconteça”.

 

Numa altura em que se comemora os cem anos da implantação da República, considera que os seus ideais devem ser reforçados?

“Ideais republicanos mas numa República moderna. Devemos celebrar a República, o que foi, as boas intenções, as ilusões, o romantismo e a ética dos republicanos. Alguns dos valores inspiraram-nos mas temos agora que lhes dar um conteúdo prospectivo, virado para o futuro. Isso é, o que eu tenho vindo a defender, uma república moderna, onde os direitos sociais são inseparáveis dos direitos políticos. Se os direitos sociais se enfraquecem ou esvaziam, fragilizam-se os direitos políticos e a própria democracia. Imagine-se o que seria do nosso país, com os problemas que está a ter com este orçamento, se as pessoas para garantir a educação dos seus filhos tivessem que pagar, ou se para se tratarem tivessem que pagar duramente a uma seguradora privada. Este orçamento tem cortes na saúde e educação mas, apesar de tudo, não mata o Estado Social”.

 

Um das suas bandeiras tem sido os jovens e os seus problemas. Referindo-se mesmo a uma falta de confiança e de futuro…

“Os jovens vivem hoje numa situação de precariedade, precariedade de vida, não só de emprego. Não têm uma perspectiva segura em relação ao seu futuro. Isto é terrível. A minha geração teve a ditadura e a guerra, mas tinha uma perspectiva história e de futuro e a convicção de que libertando Portugal muitos problemas seriam resolvidos. Mas esta geração não tem essa perspectiva. Não tem esperança.

Como PR a prioridade das prioridades será garantir que os nossos jovens voltem a ter confiança neles, no país. E dar-lhes a certeza de que haverá um lugar ao sol, um lugar na nossa sociedade para eles”.

 

Uma das problemáticas verificadas nos últimos anos foi o agravamento das assimetrias entre o litoral e o interior, com um aumento grave da desertificação. Qual será a solução para contrariar esse fenómeno?

“A desigualdade entre o litoral e o interior é um dos principais problemas do país. Além das desigualdades sociais, que são muitas, é preciso não esquecer que 18 por cento dos portugueses vivem no limiar da pobreza, um número que pode ascender aos 40 por cento se for retirada a intervenção social do Estado.

Cinquenta e sete por cento dos portugueses vivem com menos de 900 euros por mês, 37 por cento vive com menos de 600. O país tem esse problema estrutural grave, mas tem também o problema grave da assimetria e da desertificação do território nacional. Esse é um problema político que no futuro só se resolverá quando se encontrar uma solução adequada para a regionalização”.

 

Em declarações à comunicação social disse acreditar num cenário de segunda volta. Agora que já começou todo o trajecto de campanha, já está mais convicto de que está no bom caminho?

“Esta é uma luta muito difícil e muito desigual.

Há cinco anos, sem apoio partidário nenhum, fiquei a menos de 30 mil votos da segunda volta. Claro que o PR beneficia e utiliza muito bem o facto de ser Presidente. Fez campanha e até confundiu as funções presidenciais com as funções de candidato antes de formalizar a sua candidatura.

Estamos numa situação difícil. A dureza deste orçamento vai incidir muito sobre pessoas que fazem parte daquele eleitorado natural da esquerda, e até de uma das forças políticas que me apoia. Mas, creio que é possível e, apesar de ser difícil, eu acredito que é mais necessário do que nunca, porque é exactamente por estarmos numa situação destas que é preciso um presidente que tenha uma outra visão do país e outros valores. Que olhe para a democracia de outra uma maneira. Não apenas como um conjunto de regras formais mas como uma democracia com conteúdo social indispensável para a sociedade portuguesa. Aliás, basta ver com quem estão os sindicatos”.

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