Quinta-feira, 15 de Abril de 2021

Povo que lavas na banca da cozinha

Depois do estonteante sucesso da autora da mais célebre expressão “Cama feita, quarto arrumado”, eis que ela regressa aos palcos literários de reclamação com uma frase igualmente soberba ao seu público rendido: “Mulher molhada a lavar a loiça, diz-se que terá homem bêbedo”. 

O mundo pediu, ela voltou, ela veio para ficar e brindar-nos com esta desfaçatez altiva, mulher indomável e com uma franqueza de impressionar os mais desatentos seres. 

De sorriso estampado na face, as palavras saem-lhe com reclamação e ironia de quem vê a sua fotocópia (talvez) lavar a loiça como se lavasse a roupa no rio Douro, como era prática comum há uns bons aninhos.

Parecia uma tresloucada, sempre elétrica como de miúda, agarra-se ao esfregão convictamente de que aquela gordura era toda ela passageira num segundo fugaz. E era. A bem ou a mal, aquela asquerosa liquidez de tez acastanhada desvanecia em escassos segundos. A problemática aqui envolvida não era somente o atabalhoamento em que o ofício era realizado, mas também a velocidade, a atroz rabugice com que executava a tarefa e a franca avidez de quem devorava pratos, copos, talheres e panelas que, depois, desencadeava no mesmo de sempre: camisola toda ela encharcada, como se regressasse de um filme romântico do Nicholas Sparks após uma saída romântica chuvosa. Que fastídio! Sempre a mesma, sempre a mesma! Faz isso devagar! Ainda partes um prato, um copo!

Todo o ritual se repete, se repete e se repete. Não fossem as rotinas todas elas, praticamente, repetidas. 

Exaurida e regressada de um dia prolongado e extenuante de trabalho, consciente da ociosidade da filha, ela diz placidamente, como quem não quer a coisa: 

Oh, filha, eu hoje não lavo a loiça. Amanhã é a minha folga, lavo amanhã quando acordar.

E a filha já sagaz de tal discurso igualmente perspicaz, deteta-lhe ali a ânsia da sua disposição e a órbita de quem propõe que ela se chegue à frente. Depois, claro, responde. 

Numas vezes tenta ser uma palhacinha, sabendo que a mãe costuma entrar sempre na brincadeira (a menos que chegue mesmo muito cansada e não fosse ela a pessoa que mais coisas estapafúrdias ouve da filha) e diz:

Epá, então somos duas a não lavar! Fica para a próxima, não é.

Outras vezes, lá se resigna ao escapamento de não fazer nada da vida, lúcida de que os bons dias vazios cessarão em breve, e diz: 

Vá, eu lavo! Não te preocupes. Ajuda só a limpar os pratos.

Ah, e mãe, eu espero que essa tua previsão esteja completamente errada. 
 

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