Quarta-feira, 20 de Outubro de 2021
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Professores do Liceu não vão baixar os braços

O novo sistema de avaliação está a pôr os professores “à beira de um ataque de nervos”. Apesar de representar um sistema riquíssimo em burocracia, é pobre em assertividade e está a “minar” a relação entre profissionais da educação que, durante anos, não só partilharam os corredores e as salas de aulas, mas também colaboraram em torno de um único objectivo, levar avante a missão de garantir um ensino de qualidade. São muitas as vozes que individualmente vão dando a sua sentença sobre o modelo, no entanto, no Liceu de Vila Real, os professores querem fazer mais para chamar a atenção da sociedade em geral e pôr um ponto final no ataque “ao poder simbólico e auto-estima dos professores”.

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Um grupo de professores da Escola Secundária Camilo Castelo Branco, em Vila Real, está a preparar uma tomada de posição relativa ao modelo de Avaliação do Desempenho Docente (ADD), que pode passar mesmo pela organização de uma manifestação local.

Em entrevista ao Nosso Jornal, os professores puseram a descoberto as problemáticas e incongruências de um pesado sistema de avaliação de desempenho, que está a destruir a relação entre docentes e a criar um clima de “mal-estar, desânimo, frustração e impotência”, e que está a invadir “os corredores das escolas”.

“Ainda não decidimos o que vamos fazer. Estamos a reflectir”, adiantou a professora Graça Pinto, docente da disciplina de Geografia e uma das relatoras, ou seja, sobre quem recai a difícil e complexa tarefa de avaliar colegas.

Apesar de ainda não avançarem a forma como vão demonstrar ao país e ao Governo a sua insatisfação perante um modelo cheio de “imoralidades”, os docentes do liceu vila-realense consideram que há formas “mais eficazes” de tornar pública a sua posição que, simplesmente, a divulgar através da Federação Nacional dos Professores (FENPROF) ou da Associação dos Professores e Educadores em Defesa do Ensino (APEDE), como estão a fazer várias escolas a nível nacional. “Essa é a forma mais fácil”, explicou a docente relatora, adiantando como possibilidades já colocadas pelos professores vila-realense a publicação, num jornal nacional, de uma carta aberta à Ministra da Educação, ou até mesmo a organização de uma manifestação, para a qual seriam convidados os professores da cidade e mesmo do distrito.

 

Um modelo cheio de “lacunas” e demasiado burocrático

 

António Oliveira, professor de História, coordenador do departamento de Ciências Sociais e Humanas, e elemento da Comissão de Coordenação de Avaliação de Desempenho, revelou, ao Nosso Jornal, as ‘mil e uma’ exigências e requisitos do modelo agora em vigor, mas também os seus falhanços e contradições flagrantes.

“Os intervenientes no processo de avaliação são os avaliados, os relatores, as comissões de coordenação de avaliação de desempenho, e os júris de avaliação (órgão composto pela comissão mais o relator, e que é responsável pela atribuição da classificação a cada professor”, explicou o docente.

Logo para começar, o docente aponta a questão da designação dos relatores, já que, apesar de estar estabelecido que esses devem ser professores “do mesmo grupo de recrutamento, com graduação profissional igual ou superior ao avaliado ou formação académica superior”, isso nem sempre acontece, ou seja, há situações de “colegas que são avaliados por professores com graduação inferior”.

Aliando esse aspecto à falta de formação específica dos relatores, prometida no ano passado pelo ministério, torna-se claro que “muitos avaliados acabam por não reconhecer esse papel no colega nomeado”.

“Somos obrigados a desempenhar um papel e funções para os quais não estamos preparados. É muito diferente avaliar alunos e avaliar colegas, ainda por cima se estão no mesmo escalão profissional que nós”, sublinhou Filomena Afonso, professora de Geografia e relatora no liceu de Vila Real.

A mesma docente reconhece, nos “corredores da escola”, um “clima de mal-estar” que está a destruir a relação entre colegas de trabalho, uma cooperação e partilha entre “as melhores capacidades de cada um” que permitiu à escola “andar para frente”.

Os docentes referem ainda a “sobrecarga de trabalho” resultante do novo modelo de avaliação, um sistema pensado de forma economicista, cuja complexidade e até mesmo “impossibilidade” de efectivação faz com que os professores dediquem cada vez menos tempo à preparação das aulas.

António Oliveira revela que, “para além do trabalho que tinha no ano passado, e das dezenas de reuniões de preparação, “a comissão terá mais de 30 júris”. “Se houver 30 relatores na escola, são 30 júris que vão avaliar 150 professores, no espaço de cerca de oito dias”, referiu o docente, lembrando que as avaliações deverão estar concluídas a 31 de Outubro.

 

Sistema de cotas é “imoral”

 

O sistema de cotas na ADD define que apenas cinco por cento dos professores podem ser classificados como Excelentes e vinte por cento como Bons, no entanto, no processo ainda está por definir a sua delimitação, como explicou, ao Nosso Jornal, Paula Parente, professora de Filosofia da Escola Camilo Castelo Branco. “Não sabemos se vem delimitado x cotas para avaliados, relatores e coordenadores”, se é geral ou se é a escola que as define”, explicou a professora, que será avaliada por colegas.

“Neste momento, se a situação se mantiver, avaliados e avaliadores concorrem às mesmas cotas, o que não faz sentido nenhum. Há sempre concorrência, mesmo que as cotas sejam diferentes, mas neste caso a concorrência é explícita, óbvia e imoral”, sublinhou Graça Pinto.

A professora acredita mesmo que “nos próximos dias o Governo irá publicar algum normativo” sobre esse aspecto, “porque a pressão tem sido muita”.

 

“O mal-estar é geral”

e vai chegar ao Campo Pequeno

 

Carlos Taveira, da delegação do Sindicato de Professores do Norte (SPN), referiu, ao Nosso Jornal, que em Vila Real, à semelhança do que acontece em todo o país, o desconforto e a insatisfação dos professores perante o modelo de ADD é geral. “Os professores estão a ter muitas dificuldades em concretizar o modelo. Estão a nascer muitos conflitos”, explicou o mesmo responsável, testemunhando que diariamente, de toda a área de intervenção do sindicato, que representa na região mais de 800 professores, chegam perguntas e dúvidas.

Recordando que a Fenprof já pediu a suspensão deste modelo em Novembro do ano passado, ainda durante o primeiro período do ano lectivo, o delegado sindical avançou que, no dia 12 de Março, os professores serão chamados a unir-se a uma grande manifestação a realizar no Campo Pequeno, em Lisboa.

“Queremos encher o Campo Pequeno” e exigir um “modelo com pés e cabeça” em detrimento do actual, que é “injusto e burocrático”.

Também ao Sindicato de Professores da Zona Norte, este afecto à Federação Nacional da Educação, tem chegado as queixas dos professores da região, como testemunhou Ângelo Vaz, do secretariado vila-realense do sindicato, que representa 1200 professores de 9 dos 14 concelhos do distrito.

“Neste momento não há posições públicas, mas em conversa com os professores reconhecemos as dificuldades”, sublinhou o mesmo responsável sindical que, não concordando com o actual modelo, sublinha que ele “está a ser testado” e que é nesta altura que devem ser apontados e corrigidos os erros e problemas.

 

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