Terça-feira, 9 de Junho de 2026
Em FocoQualidade e quantidade superam expectativas dos viticultores

Qualidade e quantidade superam expectativas dos viticultores

No Douro, a época das vindimas traz muita gente à região, não só para fazer o trabalho nas encostas íngremes durienses, mas também para visitar e apreciar a paisagem nesta altura do ano. Mas nesta reportagem fomos falar com os pequenos viticultores que sempre se dedicaram a esta vida, que classificam esta altura do ano como “especial”, já que é agora que colhem o rendimento de um ano de trabalho.  

No concelho de Alijó, as vindimas estão na reta final e, apesar das previsões, que apontavam para uma redução significativa na produção, os viticultores com quem falamos estão satisfeitos não só com o volume de uvas recolhido, mas sobretudo com a qualidade. O segredo para estas boas colheitas está na forma como são tratadas as vinhas ao longo do ano, como nos contou Manuel Pereira, que este ano teve de gastar mais na prevenção de doenças, como o míldio, mas a recompensa chega agora na colheita. “Tenho mais 12 pipas. Este ano devo ter perto de 80, cerca de 70 de moscatel e branco mais oito de tinto”. Para estes bons resultados contribuíram os oito tratamentos que teve de fazer ao longo de 2016 para prevenir o míldio, que foi uma das grandes preocupações dos viticultores. “Normalmente fazia três ou quatro tratamentos, mas este ano tive mais despesas, que vão ser compensadas com o aumento de produção. Quem trabalhou e gastou o dinheiro tem mais vinho, quem não o fez, tem uma forte quebra na produção. É tão simples quanto isto”, sustenta este produtor natural de Alijó, adiantando que a chuva que caiu a meio de setembro foi ótima para aprimorar a qualidade. “A chuva que caiu funcionou como ouro para as uvas”.
Já sobre os preços que estão a ser praticados, este viticultor não se queixa e espera escoar toda a produção. “O preço do moscatel anda na casa dos 365 euros a dorna. O branco a 300 euros/dorna, dependendo do comprador. Para a quinta do Noval, vendi a 400 euros a caixa e vão dar um bónus, mas ainda não sei o valor”.
Outro produtor, Manuel Reis Teixeira, comunga da mesma opinião do conterrâneo, sublinhando que tem “mais um bocadinho” que no ano passado, sobretudo no moscatel e no tinto. “Vou colher um total a rondar as 40 pipas, 12 das quais serão de benefício”. 
Com a desertificação a ser uma realidade galopante no interior de Portugal, pelas quintas durienses andam vindimadores que vêm sobretudo dos concelhos de Baião, Cinfães e Resende, que são contratados por empreiteiros agrícolas, que depois prestam serviços aos produtores de vinho. Para fazer a sua vindima, Manuel Reis Teixeira contratou este serviço, porque “aqui não há gente” para vindimar. “Tenho 13 pessoas a vindimar, só tenho de me preocupar com o pagamento, o resto eles fazem. É prático e simples”. 
Já Manuel Pereira recorre a familiares e amigos para vindimar, que chegam de várias localidades do país, como Guimarães ou Felgueiras. “Aos fins de semana chego a juntar mais de 50 pessoas. São meus amigos da caça e fazem questão de vir ajudar nesta altura do ano, mas também são recompensados, já que levam sempre o melhor vinho da região. É um convívio cheio de alegria, que eu gosto especialmente”.   

ADEGA DE ALIJÓ QUER RECUPERAR O TEMPO PERDIDO

A situação financeira que assolou esta importante adega duriense ainda não foi totalmente ultrapassada, mas aos poucos os viticultores recuperam a confiança na direção, que desde 2012 tem “honrado todos os compromissos”. “Tem sido um processo demorado, mas estamos a recuperar antigos sócios e a captar novos”, refere Luís Coelho, da direção da adega, acrescentando que os sócios têm ali um parceiro em que podem confiar. “O nosso objetivo tem sido aumentar as quantidades e os preços pagos aos produtores, por isso aqui as pessoas têm a certeza de escoar a sua produção e até temos conseguido subir os pagamentos pelas uvas”. 
Sobre o futuro, Luís Coelho espera recuperar o tempo perdido, mas admite que é difícil alcançar as quantidades que foram ali recolhidas nos anos áureos da adega, até porque atualmente existem “muitos mais operadores”.
Fiel a esta adega é Salvador Granja, que não vive do vinho, é empresário no ramo têxtil, mas gosta da viticultura, como qualquer bom duriense. Anualmente recolhe 40 pipas (5 de moscatel, 35 de branco e tinto), que seguem todas para a adega de Alijó. “Houve grandes problemas, mas sempre confiei nas pessoas que estavam à frente da cooperativa. Agora, no final de outubro, será paga a primeira tranche aos produtores e depois, em janeiro, o que falta liquidar. Sou sócio e tenho uma ligação forte à adega, que fica logo ao lado da minha casa e quinta”.    

O DIA COMEÇA CEDO

Quando os primeiros raios de sol invadem a manhã, os vindimadores começam o trabalho pelos socalcos durienses, que nem sempre são fáceis de calcorrear. Longe vão os tempos em que se acartavam os cestos às costas, agora é uma pequena máquina agrícola que faz esse trabalho, que é mais rápido e menos duro. Apenas dois homens são necessários para fazer a recolha das uvas, que estão na borda dos patamares prontas para serem levadas no pequeno trator que depois são despejados nas dornas ou então nos vagões.   
Numa vinha situada no coração da vila de Alijó, são 10h00 e a carrinha já está carregada para levar as uvas até à adega, que fica mesmo ali ao lado. Um grupo de cinco pessoas começou bem cedo o dia a tirar os cachos da videira, como Raul Vaz, de São Mamede, que trabalha durante todo o ano na vinha, mas esta altura é “especial”, pois é agora que se colhe o produto de um ano de trabalho. “Gosto do que faço, mas não compensa. Considero que a agricultura foi abandonada, sobretudo no Douro, que deveria ter mais apoio para manter a sua essência. Já trabalhei em Bordéus (França), Suíça e Espanha, onde a organização é totalmente diferente. São países muito mais organizados e com outro nível de estrutura”, afirma Raul Vaz, que gostaria de ver a adega de Alijó a laborar a “grande ritmo”. “Quando era miúdo, na adega via-se um movimento frenético nesta altura do ano, mas os interesses de “algumas pessoas” quase acabaram com a cooperativa. “Empregava muita gente, que teve de emigrar para procurar emprego e melhores condições de vida. Agora só se vê essas ‘brigadas’ que trazem os empreiteiros agrícolas. É muito diferente do que era antigamente”, lamenta este trabalhador agrícola. 
Numa altura em que a vindima atingiu o pico, as adegas estão agora na laboração máxima ao receberem maiores quantidades de uva, cada um à sua vez, cada um no seu tempo. Uma coisa é certa, a produção na globalidade da região será mesmo menor, mas a qualidade será “muito boa”. Esta situação explica-se muito pelo clima chuvoso e agreste do último inverno. Apesar desta vicissitude, própria de uma atividade que depende acima de tudo do clima, a viticultura duriense poderá vir a ter um ano de excecional qualidade, muito por “culpa” do verão extremamente quente que se verificou. Isso mesmo foi confirmado por Valter Silva, enólogo da adega de Carlos Alonso. “A qualidade é boa, mas as quantidades baixaram um bocadinho, não baixou tanto quanto se esperava, mas deve andar na ordem dos 10 por cento. A qualidade é muito boa, pois a matéria-prima está em ótimas condições”. 
Ainda no concelho de Alijó, há localidades que sofreram muito com o granizo e com o míldio, onde se regista uma redução significativa, como são os casos de Cabeda, Cheires, Carlão e São Mamede. 


APOIE O NOSSO TRABALHO.
APOIE O JORNALISMO DE PROXIMIDADE.

No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo regional e de proximidade. O acesso à maioria das notícias da VTM (ainda) é livre, mas não é gratuito, o jornalismo custa dinheiro e exige investimento. Esta contribuição é uma forma de apoiar de forma direta A Voz de Trás-os-Montes e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente e de proximidade, mas não só. É continuar a informar apesar de todas as contingências, nunca paramos um único dia.

Contribua com um donativo!

VÍDEO

Mais lidas

PRÉMIO

ÚLTIMAS NOTÍCIAS