Em 1958, quando foi eleito João XXIII, não havia na Igreja nenhum problema grave. O cardeal Ratzinger, quando era prefeito da Doutrina da fé, disse que o concílio Vaticano II «é talvez o primeiro concílio da história que não foi convocado sob pressão de circunstâncias prementes».
2 – Que se passou então? – João XXIII, que era historiador, que tinha andado por várias partes do mundo como embaixador da Santa Sé e fora arcebispo de Veneza, apercebera-se que havia um certo mal-estar na relação da Igreja com o mundo.
O mundo havia mudado mais nos últimos noventa anos do que em séculos anteriores. Para isso contribuíram o enorme progresso científico e técnico, as duas guerras, a nova industrialização, a deslocação das populações para as cidades, o aumento da população, a televisão e o nascimento de novos países (Filipinas, Indonésia, Índia, Argélia, Líbia e Marrocos, o Congo e outras colónias do dentro de África) libertos do poder colonial espanhol, holandês, britânico, francês, belga e português. Em 1948 nascera o estado de Israel. Acentuou-se o desnível entre países ricos e pobres, sobretudo em África e na América latina. Surgiram problemas morais totalmente novos a que Pio XII procurou responder com oportunas intervenções, mas isso não podia continuar.
O regime de Cristandade, em que a fé era vivida a partir de uma sociedade uniforme e a Igreja uma instância moral e religiosa mundial, extinguira-se. O mundo afastava-se da Igreja.
3 – Havia desabrochado uma mentalidade que podemos chamar modernidade, se entendermos a modernidade como a soma da autonomia da razão de Kant, da vontade de poder de Nietzsche, da libertação económica de Marx e da libertação do «ego» de Freud e da metodologia científica. Essa mentalidade vinha a desenvolver-se desde o Renascimento: enquanto na Idade Média o homem se situava espontaneamente na órbita de Deus buscando aí a fonte de vida e obedecendo à Igreja (teocentrismo), agora fixa-se no mundo e nos êxitos da ciência e da técnica, e afirma-se como senhor de si, possuidor de força e de vontade própria (antropocentrismo), autónomo em relação a Deus e frequentemente descrente. Esse mundo exige um novo modo de apresentar o Evangelho e de fazer pastoral.
4 Foi a esse mundo que o Concílio quis responder: tornar a Igreja capaz de dialogar com o mundo, apresentando o Evangelho mais como uma proposta para melhorar esse mundo do que a condenação dos seus desvios e erros.
Na bula convocatória do Concílio, João XXIII escreve: «A tem consciência da grave crise que aflige a sociedade humana e, quando a comunidade dos homens entra numa ordem nova, pesam sobre a igreja obrigações de uma gravidade e amplitude imensas como nas épocas mais trágicas da sua história. Trata-se de pôr o mundo moderno em contacto com as energias vivificadoras e perenes do Evangelho, um mundo que se exalta cm suas conquistas no campo da técnica e da ciência mas carrega também as consequências de uma ordem temporal que alguns quiseram reorganizar prescindindo de Deus»
E na abertura do Concílio explicitou: «A finalidade principal deste Concílio não é a discussão de um ou outro ponto da doutrina fundamental da Igreja, mas um progresso na clarividência doutrinal e na formação da consciência, de modo que a doutrina de sempre seja estudada e exposta por meio de formas de investigação e formulação literária do pensamento atual. Uma coisa é a substância da doutrina, o «depósito da fé», e outra a formulação que a reveste. É isso que se deve ter em conta, um magistério prevalentemente pastoral».
João XXIII não desconhece os erros do mundo, mas quer que a Igreja apresente a sua doutrina numa linguagem nova e se dirija ao mundo num atitude de ajuda e não condenação: «a esposa de Cristo prefere usar mais o remédio da misericórdia do que da severidade, julga satisfazer melhor as necessidades de hoje mostrando a validade da sua doutrina do que condenando erros». Paulo VI haveria de resumir em dois os objetivos do Concílio: «estudar a Igreja no seu mistério interior» e «na sua relação com o mundo». Na reflexão sobre a Igreja, o Concílio deixou de usar a linguagem da neoescolástica dos últimos séculos e recorreu à linguagem dos primeiros séculos – a Patrística e a Bíblia, as chamadas fontes da fé. Ainda hoje é essa a linguagem de Bento XVI.
5 Sobre o carácter pastoral do Concílio surgiram logo os mal-entendidos de teólogos e jornalistas confundindo “novas formas de apresentação da doutrina e diálogo da Igreja com o mundo” com rutura com a doutrina e a disciplina anteriores, o que provocou a posição oposta de outros na defesa da doutrina na condenação dos erros do mundo. Ao primeiro grupo chamaram «progressista»; ao segundo, «conservador».
Ambos se afastam dos objetivos do Concílio: o primeiro perde a força do sal e não evangeliza; o segundo perde a caridade e também não evangeliza. Essa dicotomia é, afinal, simplista. “Mais que falar de progressistas e conservadores, adverte o teólogo R. Aubert, será melhor falar do «difícil equilíbrio entre fidelidade à doutrina e aproximação do mundo». Continua a ser esse o desafio do nosso tempo.



