Recordo ainda a impressão que me causou essa palavra e o seu mundo em Outubro de 1953, ao iniciar, em Braga, os três anos do curso de Filosofia dos Seminários diocesanos. Havia disciplinas que aprofundavam assuntos do curso geral, tais como Literatura, Latim, Grego, Biologia, Física, Química, Geologia e Trigonometria, mas a Filosofia era a grande novidade e ocupava o lugar de rainha. Afinal, Filosofia era a designação genérica de um conjunto de disciplinas com aulas diárias para cada uma delas: Lógica, Ontologia, Metafísica, História da Filosofa (Antiga, Medieval, Moderna e Contemporânea), Teoria do Conhecimento, Ética, Sociologia, Cosmologia e Teologia filosófica. Havia ainda a Psicologia que não era propriamente matéria filosófica.
Esta mistura de disciplinas de índole científica e laboratorial com outras de natureza literária e ainda outras claramente reflexivas fazia-nos perceber os três patamares da reflexão humana: positivo e mensurável o primeiro, estético o segundo, e filosófico o terceiro.
2 – Trago para aqui esta memória académica porque a «Congregação Pontifícia para Educação Católica» acaba de enviar, com data de 28 de Janeiro deste ano de 2011 e algumas notas disciplinares de 15 de Julho, o «Decreto da Reforma dos Estudos Eclesiásticos de Filosofia». Tem como destinatários directos os Seminários e os futuros pastores da Igreja, altera algumas disciplinas mormente a Antropologia, e vai certamente estimular os alunos e professores de Filosofia.
Não é este o lugar para fazer a apologia da Filosofia. Desejo apenas sublinhar a importância do diálogo da razão e fé, melhor, da antropologia e da teologia, apresentando o homem como um ser aberto ao transcendente divino, pois o objectivo final daquele documento é responder à crise de princípios que invadiu a cultura actual.
Assim como o médico se apercebe dos maus hábitos alimentares da população, o educador da fé descobre maus hábitos no uso da razão: a desvalorização da razão desvaloriza o homem e desvaloriza a fé reduzindo-a a um conjunto de sentimentos ou fideísmo; e a hiper-valorização da razão bloqueia o acesso à fé e gera o agnosticismo. Só uma inteligência disciplinada (que não precisa de ser universitária) compreenderá devidamente as questões de Deus e do Homem, aquilo que vem na Bíblia e na Tradição da Igreja e a sua relação com a sociedade.
3 – De facto, a crise da inteligência reflecte a crise da antropologia: sem uma reflexão aberta, o homem torna-se um prisioneiro no mundo e a Filosofia uma maçadoria, quase sinónima de tagarelice e loquacidade, a arte de nunca se calar, o contrário do que devia ser. Essa é a crise de hoje. Toda a gente fala da crise financeira, fala menos da crise dos costumes, e menos ainda da crise da inteligência. Acontece com a sociedade o mesmo que acontece com um pomar: todos notam imediatamente a falta dos frutos, a parte útil; são menos os que notam a perda da qualidade; e quase ninguém sabe cuidar das raízes das árvores. A crise actual é crise de raízes, o ponto de chegada de uma longa crise de civilização, a crise da inteligência e da verdade, da qual falou João Paulo II nas encíclicas «Razão e Fé» e «Esplendor da Verdade». É a situação de Pilatos enfadado diante de Jesus: o que é isso de verdade?
As pessoas contentam-se hoje com opiniões. Com isso nada de seguro se constrói: nem família, nem sociedade, nem educação, nem exercício da autoridade, nem a vida, nem a morte. O que por aí se passa com o casamento e o divórcio, o aborto e a eutanásia, o individualismo, a igualdade das religiões, a ordenação de mulheres e a queda da prática religiosa, é a consequência final das chamadas verdades enlouquecidas tais como «o valor da minha consciência», o «direito permanente à opinião», «cada um pensa como quer» e outros dislates. A afirmação de que tudo é relativo é o cúmulo da fragilidade. Nem dá consistência ao saber nem à vida nem à morte.
Outra das manifestações do descrédito da razão é o culto da sensibilidade que invadiu os jornais e as revistas, os programas da rádio e da televisão e até os livros escolares, onde a matemática e a gramática são substituídas pelos computadores e livros pintados. Até os catecismos, pelo excesso de ilustrações, dificultam a reflexão e a interiorização. As próprias celebrações religiosas tendem a ser olhadas pelo reflexo do espectáculo. Não se cuida de saber o que as coisas «são», «aonde» nos levam. Basta a simpatia. E quando tudo se fez em nome da simpatia tudo acaba na hora de algum desgosto.
4 – Dois sectores da experiência bastam para nos fazer sentir a actualidade do tema: os pais e os catequistas que ouvem dos filhos crianças e adolescentes perguntas inquietantes em busca de uma harmonia da fé e da razão; e os desabafos dos Pastores da Igreja ao notarem que muitos não assimilam a mensagem, parecendo bloqueadas por dentro.
Na «carta sobre a evangelização», Paulo VI escreveu que «ensinar a reflectir é uma pré–evangelização». Bento XVI revela-se um mestre consumado nessa arte, seja quando fala aos católicos e outros cristãos, seja quando fala aos muçulmanos e judeus, seja quando fala aos artistas e homens de cultura. A razão dignamente cultivada e iluminada pela fé torna-se hoje a ponte do diálogo entre os povos.
Educar a inteligência é um dos grandes desafios da nova evangelização.





