Quinta-feira, 29 de Julho de 2021
Eduardo Varandas
Arquiteto. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

Recordações em tempo de confinamento

Durante o período de confinamento, resolvi mexer em papelada arquivada há anos e eis que me veio parar às mãos um pequeno manuscrito, de minha autoria, de 1966, que mais não é do que o relato de uma partida de futebol efetuada entre equipas de duas freguesias vizinhas, pertencentes a concelhos diferentes. Refiro-me, evidentemente, às […]

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Durante o período de confinamento, resolvi mexer em papelada arquivada há anos e eis que me veio parar às mãos um pequeno manuscrito, de minha autoria, de 1966, que mais não é do que o relato de uma partida de futebol efetuada entre equipas de duas freguesias vizinhas, pertencentes a concelhos diferentes. Refiro-me, evidentemente, às povoações de Guiães e Galafura, inseridas nos concelhos de Vila Real e Peso da Régua, respetivamente, e que partilham uma fronteira comum.

Esse encontro futebolístico realizou-se no campo do clube galafurense, localizado nas imediações do mítico miradouro de S. Leonardo. Era domingo, esse dia 4 de setembro do ano da graça de 1966, em que, além do autor deste texto, alinharam pela equipa forasteira outros companheiros, alguns dos quais, infelizmente, já se não encontram entre nós, como os saudosos Manuel Africano, Manuelzinho da Padaria, Toninho de Corgo, Toninho Vanagoura, Fernando Mouco e Manuel Vigário. Este conterrâneo, um ano depois, teve o infortúnio de tombar em combate, na Guiné. Foi o único da minha aldeia a ter essa infelicidade.

O resultado final desse encontro, traduziu-se numa expressiva vitória, por 4 a 2, a favor dos donos da casa. Embora os guianenses tivessem feito funcionar o marcador aos 11 minutos de jogo, fatores estranhos, ao desenrolar da partida, tiveram influência decisiva no resultado, como foi o caso de um episódio rocambolesco, protagonizado pelo Manuelzinho da Padaria. Ao ter perdido o fio de ouro que usava, habitualmente, ao pescoço, provocou involuntariamente, a desconcentração temporária da sua equipa, naturalmente, preocupada com o achamento do precioso objeto (acabando felizmente por ser encontrado), levando os visitados a aproveitar esse momento insólito, para se superiorizarem e assim terem vencido a partida.

O árbitro do encontro foi um sujeito de apelido Pinho, natural de Galafura. Apesar de pouco entender de futeboladas, era, todavia, o mais qualificado localmente, voluntariando-se quase sempre para o efeito. Tinha a particularidade de beneficiar, invariavelmente, os seus patrícios, não obstante a neutralidade aparente, que se esforçava por demonstrar.

Naquela época, dada a escassez ou ausência de motivos de interesse que permitissem às populações rurais ocupar os seus tempos de lazer, o futebol constituía uma forma de entretenimento, ao mesmo tempo que fortalecia os laços de boa vizinhança entre aldeias que partilhavam hábitos de vida em comum.

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