Queria dizer-me ainda tantas coisas mas a emoção e a pressa não o deixaram dizer quase nada. O seu olhar denunciava o sofrimento de quem adivinhava que seria a última vez que estaria comigo… e foi. Aproveitámos ao máximo falar do passado, tropeçando nas ideias porque sentíamos pressa de falarmos pela última vez de uma velha paixão que nos tocava a ambos: A Banda de Mateus e o Coro da Paróquia… na despedida perfilaram-se evocações vagas de sombras onde a saudade se impunha como despedida irreversível. Já no último olhar, enquanto eu abria a porta de saída, ainda me consegue dizer com um brilhozinho nos olhos: “sabes… as primeiras meninas da banda. Lembras-te como nós as protegíamos para que elas se sentissem bem… com elas havia mais respeito… bons tempos, bons tempos!…”. Não consegui responder porque a emoção era forte. Para trás ficava o C.A.T.G.D. do Centro Social e Paroquial de Mateus.
Com o arrumar dos anos, aprendemos que todos nós carregamos mágoas, perturbações, cicatrizes. Quando se perde um amigo, parece que durante algum tempo estamos sós no universo, porque sentimos a saudade de uma ausência difícil de aceitar e digerir.
Aníbal Teixeira foi um homem carismático de partilha e gregarismo que une os homens na adversidade com aquela voz doce a dizer-nos bonitas palavras que não morrem, apenas ressoam nas horas dos silêncios e da oração.
Partiu um homem bom, multifacetado de valores humanos, sociais e culturais que só alguns conseguem atingir… Como escrivão no tribunal foi mestre, angariando de todos os colegas amizade e respeito.
Há pessoas que nunca desaparecem, aparecem não se sabe donde. Nem quando. Aparecem nas nossas vidas e continuam a aparecer…só morrem ligeiramente quando nós morremos também… Aníbal Teixeira vai ser lembrado quando se falar na freguesia de Mateus por tantas coisas que foram feitas com a sua colaboração prestimosa e empenhada num passado recente…
Aníbal Teixeira entregou-se com devorada paixão em tantas atividades culturais e recreativas por onde passou, passeando o seu perfume com a sua bonomia e espírito solidário e altruísta. A memória das coisas está sempre associada a rostos, a episódios que se instituíram nas nossas vidas como imperecíveis monumentos da alma. E este grande homem vai ficar na memória do povo de Mateus, num rosto difícil de esquecer, num sorriso impossível de ignorar…
Figura pública bem conhecida pela sua participação ativa e desinteressada quer como entusiasta indelével nos Bombos de Abambres, quer como elemento diretivo na Banda de Mateus durante muitos anos, sobretudo na década de 70 ou ainda como elemento na direção do Centro Cultural de Vila Real. Falar com ele dispensava tantas vezes o discurso da palavra, porque estar com ele traduzia tantas vezes a melhor oratória.
Adorava a música, ela descia-lhe à alma e a sua voz no trauteio de uma melodia da banda subia-lhe em amplitude calma, voz amiga, voz que mais parecia um bonito rezar. A imaginação do carrilhão tocado pelo filho Arménio era um imperativo e a lágrima solta, fugia-lhe dos olhos…
Que felicidade a dele em 1977, na Senhora da Pena, num encontro de elementos do Coro de Mateus. Ali, era o mais velho mas a sua juventude e alegria estonteante davam os sinais de um homem livre de felicidade porque ali estavam jovens de caráter com potencial artístico. Jovens que haviam de dar a Mateus a senha da sua identidade e grandeza. Aníbal Teixeira foi grande e excelso até ao fim. Nunca traiu, nunca faltou a compromissos de honra, nunca deixou de ser cavalheiro, sempre empenhado em aspergir a sua conduta com o perfume do diálogo e da conciliação. Entre tantas glórias, fica a magnífica proeza de ter sido um homem livre e responsável pelo seu próprio destino. Na lembrança de um grande homem e amigo as palavras são difíceis de escrever e dizer. As imagens sim, essas permanecerão até ao fim dos tempos!
Recordando Aníbal Teixeira
A última vez que falei com ele, havia nos seus olhos a sombra triste de uma estranha e sofrida melancolia.



