Segunda-feira, 29 de Novembro de 2021
Eduardo Varandas
Arquiteto. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

Reflexões sobre o regresso às origens

Contrariamente ao que é habitual, regressei este ano às origens duas vezes, situação que, normalmente, só acontece, uma vez por ano, por ocaisião do primeiro fim-de-semana de agosto, quando se realizam, em Guiães, as Festas em honra de Nosso Senhor dos Aflitos. Mas, por razões particulares fi-lo uma segunda vez, na segunda semana deste mês, circunstância que me permitiu participar nas tradicionais merendas, realizadas no recinto de Nossa Senhora da Azinheira, em S. Martinho de Anta

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Trata-se de um ritual, intregrado nos festejos em honra de Nossa Senhora da Azinheira, que tem sempre lugar no dia seguinte ao feriado de 15 de agosto.

A última vez que tive o ensejo de participar nestas festividades foi em 1970, há quarenta e nove anos. É sempre emotivo e consolador regressar aos lugares que fazem parte do nosso passado, e que têm um significado especial nas nossas vidas, por nos proporcionarem, acima de tudo, reencontros de velhas amizades.

No percurso de Guiães até S. Martinho de Anta, passando pela Senhora da Guia, Magalhã e Roalde, ainda eram visivéis, na envolvente à capelinha da Senhora da Guia, os sinais das festividades ali decorridas no passado dia 11. A respetiva comissão de festas, não tinha ainda desmontado os arcos decorativos ao longo da estrada alcatroada, que passa mesmo ao lado do recinto daquele santuário mariano. Devo dizer que, talvez por ser de noite, fiquei alegremente surpreendido com a beleza propiciada pelos tais arcos ornamentais, dos quais emanava um sem número de luzinhas multicores que naquele meio rural e campesino, lhe conferiam um encanto ainda maior.

A propósito deste cenário encantador, dei comigo a cogitar, estabelecendo um certo paralelismo entre as romarias de agora e as que se realizavam nos meus tempos de menino e moço. Durante a minha juventude, fui sempre um festivaleiro inato. Não havia festa nem festança em que eu não marcasse presença, quer com o meu grupo de amigos, quer acompanhando o saudoso Libório, com a sua aparelhagem sonora, em que muitas vezes desempenhei a função de DJ.

Nos dias festivos, as aldeias em redor de Guiães, contavam sempre com a nossa presença. Galafura, Poiares, Abaças, Bujões, Gouvinhas, Paradela de Guiães, S. Martinho de Anta, Sabrosa, etc., não escapavam à nossa insaciável curiosidade festivaleira.

Comparando as romarias atuais com as dos tempos idos, podemos dizer que as procissões e as demais cerimónias religiosas são as únicas características que permanecem idênticas. De resto, as noites dançantes, que outrora eram abrilhantadas pelas aparelhagens sonoras e pelas bandas filarmónicas, foram sendo substituidas pelos conjuntos e os chamados artistas de música pimba. Os tradicionais concertos, participados pelas bandas musicais, deixaram de se realizar, salvo rarissimas exceções, como é o caso de Poiares e S. Martinho de Anta, onde ainda se mantém esse hábito enraizado, noutros tempos, nas nossas comunidades locais.

Enfim, são os sinais dos tempos.

PS: Em S. Martinho de Anta no pequeno pedestal que suporta o busto de Miguel Torga, junto ao célebre negrilho, no Largo do Eirô, verifica-se a ausência de algumas letras no nome do escritor. Será que as autoridades locais ainda não se deram conta dessa falha grave? O autor de Novos Contos da Montanha, e ilustre são-martinhense, merecia outra atenção.

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