Quarta-feira, 20 de Outubro de 2021

S.O.S. para o mundo rural

A Comissão Parlamentar de Agricultura, Desenvolvimento Rural e Pescas da Assembleia da República, no seu périplo junto de alguns representantes do sector produtivo agrícola das zonas do Barroso e do Alto Tâmega, constatou que o mundo rural está a ficar esquecido pelo Poder Central. Todos os representantes das forças políticas nacionais ficaram preocupados com o êxodo rural, e com a diminuição dos apoios e incentivos, nomeadamente na área da pecuária, florestal, vinho, batata e produtos de denominação de origem protegida.

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No início desta semana, dez deputados, representativos dos vários grupos parlamentares da Assembleia da República, AR, visitaram os concelhos de Chaves, Vila Pouca de Aguiar, Boticas, Valpaços e Montalegre, onde sentiram o eco das dificuldades do sector associativo e prometeram que irão levar a debate nos vários órgãos da AR a crise de sustentabilidade que afecta o sector agrícola em Trás-os-Montes.

Na segunda-feira, nas instalações da Cooperativa Agrícola de Boticas, o deputado Pedro Soares, do Bloco de Esquerda (BE), falou sobre as dificuldades que atravessa o sector pecuário, que não consegue comercializar, nem escoar os seus produtos. Alguns dos intervenientes foram incisivos e pediram a intervenção urgente do Governo em algumas matérias. Luís Lopes, em representação da Associação do Maronês/Cooperativa Agrícola de Vila Real, defendeu uma maior valorização da carne e a criação de uma rede comercial que valorize e garanta o escoamento do produto. Ao mesmo tempo, falou na necessidade de mais apoios sustentáveis ao criador da raça maronesa, deixando um alerta: “Há produtores que são tentados ao cruzamento com outras raças para alcançar mais ganhos em termos de mercado. Facto que pode colocar em perigo a pureza da raça, no futuro”. Este dirigente assumiu também uma “rede de comercialização mais consentânea”.

No mesmo sentido, Xavier Barreto, produtor da raça barrosã, focou a questão do perigo do cruzamento de raças e na consequente perca da sua identidade, o fim de apoios ao regime ‘Qualidade’ e a diminuição de prémios à produção. No sector da raça barrosã, foram revelados alguns números que são bem claros quanto à sua regressão. “No início de séc. XX, no Barroso, havia cerca de 220.00 animais. Em 1975, existiam 30 mil, hoje apenas há um efectivo de 7.500 cabeças”.

Albano Alvares, presidente da Capolib, aproveitou para tecer duras críticas ao Ministério da Agricultura e ao Governo, pela falta de políticas de apoio ao associativismo. Deixou ainda no ar que “se tudo a continuar assim, as cooperativas acabarão e a actividade agrícola será muito penalizada”. “Nos últimos sete anos não houve nenhum projecto de um jovem agricultor, isto é sintomático e mostra como o mundo rural está a desaparecer”.

Pedro Soares, presidente da Comissão, sintetizou as preocupações ouvidas e reconheceu dificuldades na sobrevivência do mundo rural. “De facto, o mundo rural precisa de um S.O.S. Acompanhamos com muita atenção as preocupações dos diversos sectores da produção agrícola, nomeadamente da castanha, da batata, das raças autóctone e do vinho (Valpaços). Também noto a vontade e o esforço de todos os actores em investir na agricultura e combater o êxodo rural”. Há problemas comuns, como os preços à produção que “são muito baixos e há um esmagamento de preços por parte da distribuição”. “As políticas públicas de apoio também nem sempre têm funcionado bem. Este tipo de questões tem de ser resolvidas”. “De um lado, temos os produtores agrícolas a fazerem um enorme esforço para que haja um aumento de produção, para manter os sectores em actividade e proporcionar a fixação dos mais jovens. Por outro lado, temos as políticas públicas que nem sempre correspondem a este esforço”.

Pedro Soares sublinhou que a Comissão veio ouvir e inteirar-se dos problemas para ter uma melhor percepção das dificuldades que existem no terreno nas áreas do interior, para levar estas preocupações à Assembleia da República e ao Governo. “Esperamos que, por iniciativa dos grupos parlamentares, existam mudanças no sentido de dar de facto uma nova vida ao mundo rural e à produção agrícola. O país não é só constituído pelas grandes áreas metropolitanas. Todas as regiões do interior têm de manter as suas populações e sem rendimento, nem riqueza, será muito difícil que as populações se mantenham”.

Faziam ainda parte do Grupo Parlamentar, Pedro Pimentel (PSD), Paulo Baptista (PSD) e Paulo Barradas (PS).

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