Quinta-feira, 29 de Julho de 2021
Barroso da Fonte
Escritor e Jornalista. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

Saudades da Telescola e das regentes escolares

O padre Delmino Fontoura assinou na Voz de Chaves das últimas semanas um pequeno texto que intitulou: «Telescola: – que saudades tenho dela!» Começa assim: «Quando, no fim de 1971, tomei conta das paróquias de Mairos e de Paradela, uma das primeiras coisas que implementei foi a criação de uma Telescola a funcionar no Salão […]

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O padre Delmino Fontoura assinou na Voz de Chaves das últimas semanas um pequeno texto que intitulou: «Telescola: – que saudades tenho dela!»

Começa assim: «Quando, no fim de 1971, tomei conta das paróquias de Mairos e de Paradela, uma das primeiras coisas que implementei foi a criação de uma Telescola a funcionar no Salão Paroquial de Mairos. Foi uma das boas ideias de Marcelo Caetano: levar o ensino às aldeias numa altura em que ainda não havia transportes nem tão pouco estradas para as povoações. Chegámos a ter quatro turmas com 80 alunos e oito professores. Assim, alguns jovens com 15 ou 16 anos puderam fazer os seus estudos do 5º e 6º anos».

 Muitos e grandes empresários, técnicos e quadros médios do aparelho do Estado ou de Empresas privadas, graças a esse ensino à distância, subiram na vida ativa da sociedade Portuguesa.

Dos mais recônditos Lugarejos do país real, onde não havia escolas primárias, nem professores diplomados pelas Escolas do Magistério Primário, emergiram do anonimato, por três vias: esse tipo de ensino à distância onde, desde 1962, já havia televisão a preto e branco;  através das heroicas professoras regentes que, tendo apenas a 4ª classe, faziam um exame sobre os seis meses de preparação e, passando, eram distribuídas pelos lugarejos mais recônditos, ou as verdadeiras professoras que faziam o 5º ano dos liceus e mais dois  anos da Escola do Magistério Primário.

Apesar das deficitárias finanças do Estado Novo, o país construiu escolas primárias pelo menos em todas as freguesias e, em certos casos, até em aldeias onde havia alunos em excesso.

O Padre Delmino Fontoura deu o lamiré: «Telescola! que saudades tenho dela!»

Lembro-me de uma minha prima de Gralhós, Montalegre, que foi escolhida para lecionar matemática na telescola. Foi das primeiras docentes do ensino secundário. Nunca mais esqueci essa grande senhora que me deslumbrava, a mim, mais velho, pastor de vacas e da vezeira, que apenas conhecia Gralhós pelas ameixas bravias que ali abundavam. Formou-se em Coimbra e fixou-se em Chaves, onde ensinou alunos, hoje distintos cidadãos. Deixou rasto de um saber quase divino, aos olhos deste débil parente que só mais tarde conheceu o «ti Vicente», a filha, Maria do Carmo e a neta prendada. Não ficou por ali tão nobre geração. A Sofia e o Gabriel atestam esse rasto de bondade e de nobreza humana que irradiaram das terras de Barroso, ligadas ao ensino, através da Telescola. Que saudade desses tempos tão difíceis!

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