Sábado, 16 de Outubro de 2021

Sem-abrigo vão ter casa de acolhimento

Esta semana, o Instituto de Segurança Social revelou que há mais de duas mil pessoas sem-abrigo em Portugal. Vila Real não foge a esta realidade e cerca de vinte já foram referenciados pelas instituições de solidariedade social, nomeadamente pela Cruz Vermelha que pretende avançar, já em 2011, com um projecto há muito ambicionado: a construção de um Lar para os sem-abrigo da cidade e instalações de outros serviços sociais de apoio.

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O número de pessoas que batem à porta da instituição a pedir alimentos está a crescer a um ritmo bastante acelerado, o que levou a uma ruptura de stocks. Só num dia, mais de uma centena de pessoas pediram géneros alimentícios.

O presidente da Delegação da Cruz Vermelha de Vila Real, Coronel Dias Vieira, e o vice-presidente, António Vale, falaram ao Nosso Jornal sobre a construção do abrigo e outros aspectos da instituição. O equipamento social está previsto para a zona de Abambres. “É uma localização fantástica, com vista sobre a cidade, situa-se na freguesia de Mateus, num terreno que foi doado em 1957”. O processo esteve emperrado alguns anos. “A Câmara cedeu-nos inicialmente um terreno, mas não era o local ideal. Agora, o novo PDM já permite a construção no nosso terreno, numa área de 600 metros quadrados do total de cerca 15.700 m2, havendo a possibilidade de criar até cinco pisos. É uma área muito grande, mas o que nos falta é dinheiro”, contou António Vale. Precisamente para colmatar a falta de fundos para arrancar com o projecto, a Cruz Vermelha equaciona vender as instalações junto à GNR e mudar tudo para as futuras instalações, numa parceria com empresas. “Aliás, já temos duas firmas ligadas à saúde interessadas na área de Abambres. Assim, o terreno seria uma parte da Cruz Vermelha e a outra parte para o parceiro vocacionado sempre para o apoio social e saúde”, sublinhou Dias Vieira. A ideia da Cruz Vermelha de Vila Real passa também por mudar a unidade de fisioterapia, que está a pagar renda pelo espaço onde se localiza actualmente.

Caso a ideia se concretize, os responsáveis pela instituição pretendem criar uma unidade de cuidados continuados. António Vale levantou um pouco o véu sobre aquela que será a primeira unidade de acolhimento dos sem-abrigo na cidade. “Será um edifício com capacidade para 20 pessoas, onde estas poderão estar 3 ou 4 dias em tratamento, se for esse o caso. As pessoas que não tem um local onde ficar, podem pedir ali alojamento até que se encontre uma família ou outros meios de acolhimento, neste caso teremos que trabalhar com a segurança social”.

Na cidade já há muitos sem- -abrigo, uma realidade constatada pela Cruz Vermelha. “Infelizmente, à noite, há muitas pessoas a dormir na ponte junto às Piscinas Municipais. Outros ficam perto da Almodena, onde há também muita gente de etnia cigana. Alguns têm família, mas já não a procuram. As próprias famílias não sabem deles e a polícia não pode resolver estas questões”.

Dias Vieira salientou que a unidade dos sem-abrigo da Cruz Vermelha de Braga é um bom exemplo do que se poderia fazer aqui. “É um espaço maravilhoso. Há quem diga que não é rentável, mas não sei como é que os sem-abrigo vão pagar, alguém tem que os acolher. Se estamos à espera de rentabilidade, não vale a pena. Era importante avançar com esta ideia, mas não sei se o Estado nos dará os apoios suficientes”. O interesse e o empenho da Cruz Vermelha de Vila Real já foi transmitido ao Governador Civil, ao presidente da Câmara Municipal e ao assessor do Gabinete Nacional do Cruz Vermelha.

Estes dirigentes não evitaram falar de uma outra realidade, a fome. “Há famílias em Vila Real a passar fome”, salientou António Vale. “Há cada vez mais gente a bater à porta. Na segunda-feira, quando aqui cheguei, tinha mais de cem pessoas e não tinha géneros alimentares para dar. Eram 43 famílias, acabei por dar roupa porque não temos alimentos, antigamente, tínhamos sempre. Há casos de fome na cidade, se assim não fosse não se sujeitavam a vir pedir”. Perante esta realidade, António Vale adiantou a Cruz Vermelha vai fazer uma campanha de recolha de alimentos, mas só em Janeiro. Ainda temos stocks de vestuário e calçado. “Temos sapatos novos que algumas sapatarias nos deram e temos roupas, que sobraram das colecções”, contou.

Os alimentos que costumam distribuir são arroz, massas, óleo, leite, bolachas e conservas. “Temos a função de apoiar os mais vulneráveis, em situações de emergência. O papel da Cruz Vermelha é alojar as pessoas, dar alimentos, e, por vezes, até oferecemos mobílias e fazemos pequenas reparações em habitações”, concluiu.

Para sensibilizar a comunidade para esta causa solidária, a Delegação da Cruz Vermelha de Vila Real vai fazer uma campanha de angariação de sócios. “Iremos contactar e falar com as pessoas para se fazerem sócias desta instituição. O fundamental do associado é ser solidário com os que mais precisam. Durante o próximo ano esperamos atingir os 500 associados e lembro que quem é nosso sócio usufrui de várias regalias”.

Números do Instituto de Segurança Social revelam que há mais de dois mil sem-abrigo em Portugal, dados que apuram apenas as pessoas sem casa ou que vivem em centros de alojamento temporário. Por isso, os números são mais baixos do que o previsto. Lisboa e Porto concentram 90 por cento destes sem-abrigo, mas há outros concelhos preocupantes, nomeadamente Coimbra, Braga, Setúbal, Faro, Cascais, Amadora, Almada e Seixal. Dos sem-abrigo, 84 por cento são homens, 82 por cento são portugueses e 60 por cento das pessoas têm entre os 30 e os 49 anos de idade. O estudo elaborado pela Segurança Social aponta para pessoas com baixas qualificações, onde uma em cada quatro não tem qualquer tipo de rendimento, outros recebem uma pensão ou o Rendimento Social de Inserção e muitos têm problemas de saúde, aos quais se acrescenta a toxicodependência e o consumo de álcool.

O projecto “Casa Primeiro”, que já existe em Lisboa, vai ser alargado ao resto do país a partir de Janeiro. Segundo a Segurança Social, a ideia é alargar este tipo de alojamento a outros pontos do país, em função das necessidades e das disponibilidades.

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