Sexta-feira, 3 de Dezembro de 2021
Paulo Reis Mourão
Economista e Professor Universitário na Universidade do Minho. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

Sobre os impotentes e os cobardes

Já Santo Agostinho dizia – querer sem poder, é impotência; poder sem querer, é malícia.

-PUB-

Tal aforismo aplicava-se à generalidade dos atos de bondade enquanto expressões da vontade humana. Desde a afetividade até à política. Querer fazer o bem e não o poder fazer, é impotência; mas poder fazê-lo e não o querer, é já malícia.

O italiano Inácio Silone, aproveitando esta base, sugeria que para a política ser bem feita precisava de três dimensões – capacidade, vontade e coragem. Capacidade de fazer bem, de iluminar bem as ruas de uma cidade ou das relações entre as pessoas. Vontade de o fazer. E coragem de cortar com as pressões dos grupos instalados, dos que desejam mal ou desejam o mal. Em última análise, a história premeia os políticos corajosos, o voto premeia os voluntariosos e as finanças os capazes, como também referia.
Sentimos todos que os nossos sentidos de democracia vêm sendo questionados. Podemos aceitar os que dão soluções imediatistas – os denominados populistas – quando sabemos que os problemas são complexos? Podemos aceitar os tempos de urgências diferentes sentidas pelas populações que convivem com a profunda desigualdade sócio-económica, o arrepio dos direitos e a lentidão dos processos administrativos e burocráticos? Em suma, os totalitarismos são – na grande maioria dos exemplos – as respostas dos audazes às falências das instituições parlamentares.

Jacques Maritain foi um francês que, vivendo as duas Guerras Mundiais, o percebeu. Vindo de uma infância protestante, pouco a pouco, aproximou-se do catolicismo e chegou à década de 1950 como um dos filósofos cristãos mais influentes, lançando as sementes da Comunidade Europeia e as ideias ecuménicas do Concílio Vaticano II. Escreveu uma obra dura – cristianismo e democracia, na qual diz claramente que sem raízes cristãs a democracia não pode vingar. Inclusive aqueles que fazem da democracia a própria religião perceberão que o afastamento do cristianismo trará a debilidade da política democrática, transformada pouco a pouco no totalitarismo.

Assinei com o Pedro Seixas Miranda o artigo “Christianity, democracy, and Maritain: a reading of a path of meetings and retreats” publicado neste ano na International Review of Economics, em cujo conselho editorial estão Prémios Nobel como Amartya Sen ou Joseph Stiglitz. Nesse artigo, dissecamos a atualidade da obra de Maritain e sobretudo a atualidade do seu argumentário político-económico. E o que surpreende é como tal obra, cada vez mais, se vem tornando atual.

Neste período assim propício, desejo a todos Festas Felizes! E que todos possam e queiram. E que sejam corajosos, porque cada vez mais para fazer o bem (e fazê-lo bem) é necessária coragem.

Mais Lidas

Subscreva a newsletter

Para estar atualizado(a) com as notícias mais relevantes da região.